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Ao ano em que muitas coisas mudaram. E diga-se... ainda bem! E com isso o tempo também mudou: foi reduzido. Ao ano em que alguns amigos sairam de cena, talvez por escolha deles, talvez por minha mesmo. Ao ano em que outros que eu já conhecia entraram pro elenco principal, me surpreenderam muito com a parceria e a confiança mais do que pude imaginar antes, me ajudaram. Me chamaram. Estiveram do lado. Àqueles que conheci na correria do dia-a-dia e enfrentam problemas do trabalho na força e na coragem lado a lado, ajudando com lágrimas e abraços, com bom-bons e post-its. Àqueles do tempo de colégio que converso como se ainda matássemos aula na padaria. Ao ano em que aprendi a não sofrer tanto por quem não merece. Ou melhor ainda: não sofrer pelo término de algo que ainda nem começou! Aos amigos que moram em outra cidade e passam horas conversando comigo de madrugada. Aos que me acompanham nas baladas, nas furadas e nos boca-livres. A alguns amigos da faculdade, pessoas loiras que viraram família e me fazem muita falta quando não estão por perto... é, você mesmo que eu to falando, rsrs.

FELIZ ANO NOVOOOOOOOOO A VOCÊS TODOS!


INCLUSIVE A VOCÊS DO BLOG, QUE TAMBÉM TÊM PRESENÇA NO QUE EU DISSE.



O Expresso dos 30s


O Expresso da Meia-Noite dos Anos 30"*

E se você caísse na prisão por algo que não fez? Lutaria para provar sua inocência ou cansaria das tentativas frustradas e fugiria? Impossível não ver mais crítica social em um filme americano dos anos 30 -- bem naquele período chamado "Grande Depressão" -- do que em I Am a Fugitive From a Chain Gang. No Brasil, "O Fugitivo".

Paul Muni faz um rapaz de família que volta da Primeira Guerra Mundial querendo revolucionar sua vida. Segundo ele, tudo o que passou serviu de inspiração para que procurasse sua real vontade na vida. Passar o resto de sua existência atrás de máquinas e paredes era impensável. A grande "lente" pós-Tempos-Modernos. Sendo assim, contrariando sua mãe e o irmão [um reverendo], Paul não aceita o trabalho anterior na linha de produção de uma fábrica e sai em uma dura jornada aspirando se tornar um grande engenheiro civil.

Pois bem, suas dificuldades começam. Seu personagem, James Allen, não encontra estabilidade em nada. Novato na profissão percorre quase todo o país em busca de oportunidades. Esgotadas suas opções, o dinheiro fica escasso e moradia também. James conhece um parceiro de trabalho que o leva a uma lanchonete garantindo que o dono lhes daria algum sanduíche de graça. O que não sabe é o seguinte: no meio da refeição, seu amigo decide assaltar o estabelecimento e, rendendo ambos com uma arma, obriga-o a pegar todo o dinheiro do caixa. A polícia então aparece e prende James. Em sua primeira cena memorável no longa, Paul Muni nega assustado ser parte de tudo aquilo. Seus olhos brilham e já é nítido a indignação pela qual vai passar. Indignação e mudança.


Na cadeia, o trabalho braçal é esgotante e as más condições dos presos amarrados em correntes são mostrados sem maiores pudores. O desgaste faz parte da fisionomia, da caracterização. Quem não trabalha direito é açoitado pela noite e se desmaiar... pior ainda. Por ironia, até um simples movimento de enxugar a testa com a manga da camisa precisa ser informado aos guardas.

As cenas de fuga e perseguição são todas muito bem projetadas para o tempo em que foi filmado. Nada está fora de propósito ou artificial. Muito menos o medo permanente nos olhos de James. Revoltado com todos os trâmites insolúveis e engrenagens quebradas do sistema político, chega a declarar que o Estado deveria ir preso, não ele.

A maior artimanha do longa proposto pelo diretor Mervyn LeRoy é ser enxuto e preciso. Talvez por se basear em um livro, a biografia de Robert Elliott Burns, os 93 minutos estão todos bem distribuidos. Não cansa e possui ritmo.

Um modo revolucionário de dizer como os honestos são forçados a serem desonestos, e como um bom homem não mudou, mas foi mudado.

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* http://theywatchus.blogspot.com/2009/05/o-expresso-da-meia-noite.html

Viajante



"...don't let's ask for the moon.

We have the stars."


O que te faz sentir como os outros? Alguém capaz de amar e ser amado, de compreender e ser compreendido? Qual esse componente inexplicável dentro de cada ser? Algo que traga força a uma pessoa, que lhe recobre as perspectivas de vida. Sua vontade de vencer, de lutar. Uma simples mudança que garanta a auto-confiança e o amor próprio.

Este é um dos principais questionamentos de "Now, Voyager" [ou, A Estranha Passageira], filme de 1942 dirigido por Irving Rapper e estrelado por uma Bette Davis aos 34 anos, no auge de sua - por assim dizer - juventude.

Tia Charlotte é uma moça solteira que mora sob os cuidados da mãe e é tratada por todos como chacota da família. A ovelha negra. O patinho feio. Ela anda com os ombros ligeiramente arqueados para baixo, não possui postura e é de poucas palavras. Dos inúmeros problemas, é difícil escolher qual o mais grave em sua situação. Existe a escolha entre ser independente ou permanecer cabisbaixa por imposições alheias descabidas, a arrogância e tirania irritante da mãe que a suga e a vê como uma empregada particular e as culpas sem fundamentos de uma época muito rígida. Mas o pior de todos, talvez, seja sua beleza. Por trás de um vestido grande, alguns quilos a mais, sobrancelhas desfeitas e óculos existe alguém que precisa ser feliz.

O nervoso visto nas mãos aflitas reflete bem o que é estar aprisionada em seus próprios medos e angústias. O medo de cometer erros antes mesmo de tentar algo é a pior barreira. Seus ataques demonstram isso com uma riqueza de detalhes sutis que desde o começo é possível colocar-se ao lado da personagem.

O médico que é chamado para observar a filha - Dr. Jaquith [Claude Rains] - constata que ela está doente, mas que não existe nenhum sinal de demência ou insanidade. Ela sabe articular as palavras a ele, sua teorias; compreende perfeitamente o que a cerca.


Em determinado trecho do longa, a citação de que existem "artefatos" escondidos no quarto que a moça tranca a chaves surge. Existe até uma interessante especulação sobre o que é escondido atrás dos livros de Charlotte. No filme não é possível saber, mas de acordo com o livro homônimo de 1941 que inspirou o roteiro, seu autor tráz a seguinte passagem:

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"The color mounted to Charlotte's face. She had left for Cascade so unexpectedly last fall that she had failed to remove a number of articles from the dark tunnels behind her books -- cigarettes, three reclining bottles of medicated sherry, so bitter she'd never been able to consume but half of one bottle, a pink tin make-up box, and all that literature which her mother considered indecent."
Olive Higgins Prouty


"O rubor se ascendeu sob o rosto de Charlotte. Ela havia se retirado para Cascade de forma tão inesperada no último outono que tinha esquecido de retirar inúmeros itens do escuro túnel atrás de seus livros -- cigarros, três garrafas de xerez, tão amargo que não tinha conseguido sequer beber mais do que meia garrafa, um estojo rosa de maquiagem, e toda aquela literatura que sua mãe havia considerado indecente."

ps. tradução minha. s. eu poria algumas notas de página pa
ra explicar algumas coisas omitidas, mas, enfim...

***

Embora pareça uma afronta a família, permanecer um tempo longe de sua mãe é mais do que necessário para a recuperação. E isso acontece. Charlotte se desloca para um sanatório.

Antes de retornar ao lar, Bette Davis encara como parte do teste de valorização de sua auto-estima um cruzeiro para a América do Sul. Lá, pega um táxi com um ator que não é brasileiro, mas provavelmente português ou espanhol, se envolve com um homem, visita o Pão de Açúcar, passa pelo Cristo Redentor e etc. Momentos inesquecíveis do cinema hollywoodiano em final de 2ª Guerra Mundial que deveria ser assistido por todos que admiram a sétima arte.

Em meio a romances e dúvidas, Charlotte tem o poder de se chocar contra seu próprio antigo reflexo na segunda metade do longa e reparar em quantos aspectos ela estava errada. Em outras palavras, ao voltar para o sanatório se vê na imagem de uma pequena paciente. Algo único e comovente. Cenas que ajudam a edificar o real caráter de Charlotte. Seu lado afetuoso. Humano. Um jogo do destino, afinal não sabe sobre a família da menina. Uma chance - irônica - de não só contornar um destino horrível mas fazer as pazes com sua nova vida definitivamente.

A cena final carrega um dos diálogos mais inteligentes e fortes para o desfecho de um filme. Aliás, durante as 2 horas não existe uma única linha de texto que não seja forte e necessária. A emoção carregada nos olhos, segurando o cigarro, que antes nunca tinha podido segurar, é subjetiva e não necessita de explicações. Sem cenas muito previsíveis, Now Voyager demonstra que apenas nós temos o poder de mudar nossa vida quando é preciso, e esse é o melhor caminho.



Tradução


Uma pequena brincadeira feita na faculdade. Se googlado, o texto é de autoria do próprio autor do blog, então não tem problema!

Simples Divisão

Sou quem sou
Mesmo tentando não ser
Digo agora:
Que alegria em perceber!

Pra que se confundir
Quebrando espelhos de amargura
Pra no fim... pisar cheio
Em fortuna!

Difícil há de ser
Não existem planos macios
São os pés
Que pisam até em rios

Pra que dúvida
Duas metades se completam
Nunca se anularão
São apenas o seu todo

Aquele que não sabe
Não te entende
Será o parvo
Por mais que tente.

Eddie


NOVAS ONDAS

Eddie Vedder lançou no final do mês de maio deste ano o disco solo Ukelele Songs. Muita gente que curte música e sites de mídia em geral já deve ter notado. A arte da capa é linda. Nos arranjos: apenas o ukelele. Mas e o conteúdo?

As novas composições (com alguma exceções -- like Can't Keep e o cover de Dream a Little Dream of Me) requerem paciência e calma. Não é rock. Não é pop. Para os mais afoitos, o áudio se torna cansativo lá pela quarta faixa, o que torna o disco visivelmente não tão comercial. E claro, a intenção de lançamento jamais iria ser essa. O truque é escutar de mente aberta e sem grandes expectativas os 30 minutos de gravação. Deixar rolar.

Talvez se algumas canções fossem um pouco mais lentas e outras um tanto mais melódicas aquilo funcionaria -- para não dizer melhor -- de uma forma diferente.

Mas é impossível desqualificar tanto assim Ukelele. É óbvio que o trabalho diz muito ao autor e seu amor pela música. A Billboard, por exemplo, compara o conjunto criacional a um cenário de "Insônia. Luas. Oceanos." A metáfora surfista não é nem de longe errada. Existe o "zen", entende? Ter um ambiente lounge-praiano com o som do vocalista do Pearl Jam de fundo é muito bom, sem dúvida. Até agora não existe fã real da banda que tenha rejeitado por total essa compilação. Compilação que merece o adjetivo sim de, exagerando um pouco, única.

Um dos problemas é que ao mesmo tempo que mostra caráter, parece ter faltado um pouquinho de alma. Por isso a obra transmite uma impressão de mediana. Às vezes é possível ter a sensação de ter ouvido apenas 1 música em vez de 16 faixas, não pela falta de outros instrumentos, mas pelos ritmos envolvidos. Ele não faz muito jus ao instrumento havaiano que tem o poder de soar como puro sentimento. Uma amostra disso pode ser conferida no seu prévio cd solo -- excelente -- "Into The Wild" (trilha sonora do filme homônimo).

Curioso.
Mas digno de ser avaliado.
Pelo menos para não considerar o post contraditório: quis dizer, disse, se contradisse, e depois não disse mais.
rs