Sem título. Uma nota qualquer.


Saudade. Saudade de como eu era, de como eu via as pessoas. Dos abraços apertados, dos frios na barriga, das coisas novas e dos presentes. De dizer oi, de me despedir e sufocar todas as minhas rasas preocupações nos compromissos daquele dia. Viver tudo intensamente pra poder acordar e começar de novo. Trabalho, faculdade, amigos e amores. Fosse como fosse. Mas que fosse. Os perfumes. A empolgação. As sensações. As distrações. E o sorriso.

As pessoas dizem que nós mesmos escolhemos os caminhos. Um lindo pensamento, mas uma grande injustiça. Fui eu mesmo quem espantou todas essas coisas? Detalhes que hoje eu desconheço por me desconhecer. E não são poucos.


Sabe aquelas passagens ridículas e sem importância que a gente se lembra por nada? Esses dias me ocorreu o quanto eu reclamava por ter o terrível hábito de marcar músicas e discos à pessoas e lugares. Algumas canções foram definitivamente arruinadas por isso, outras ainda guardo como uma boa lembrança. Uma decepção ali, um aprendizado aqui e uma estabacada mais adiante. Mas isso acontecia pelo menos. O que eu fiz com esse hábito que nunca mais apareceu? É como se tudo tivesse parado de repente. Eu parei de criar memórias? Com a minha idade eu consegui fazer isso???

Sinto falta de tantas coisas que já não consigo nem enumerá-las mais. Foram todas decisões erradas que eu tomei pra chegar nisso? Será que alguma pelo menos eu acertei? Pode ser temporário, quem sabe uma crise dos vinte-e-poucos, ou mesmo algo que no fundo eu saiba o motivo.

Mas eu ando sentindo uma incrível vontade de encontrar aquele lá,
aquele que guardava os cds no guarda-roupa pra nunca mais ouvir (mesmo sabendo que o nunca acabaria dalí alguns meses), e dizer pra ele voltar.
E ficar.

A Vida Trouxa



Conseguir concluir um livro depois de uma longa lista de volumes abandonados é quase como o Brasil NÃO levando 7 a 1 na Copa e a torcida levantando. E não é que eu consegui?

Morte Súbita, lançado em 2012, conta a história dos moradores de uma pequena cidade chamada Pagford. Barry Fairbrother morre por um aneurisma na 1ª página e deixa vago o seu lugar no conselho Distrital. Uma eleição é convocada e os problemas começam, já que seres-humanos são... Enfim, são o que são.  Basicamente esta é a sinopse. Nada mais complicado.

O que começa a complicar, porém, é a quantia excessiva de personagens. Esse fator chega a ser, confesso, um pouco irritante. É preciso calma. Não que isso seja um impecilho pra uma boa leitura, ou mesmo que seja difícil. Não é. E se você não está acostumado com algo assim, logo fica. O problema é a apresentação deles. Cada um dos núcleos (eu contei em torno de 7) são jogados a cada "semi-capítulo" novo, ou seja, de 2 em 2 páginas. Sem tempo pra respirar. Não é nada progressivo. E são dados nomes a personagens que nem aparecerão depois. Ou aparecerão, mas só no finalzinho. Portanto, um bloco de notas nesse momento é sempre bem-vindo. Um bloco de notas e seu bom-senso, claro.

O livro só começa a tomar forma depois de 80 páginas. Então, se você foi perseverante o suficiente pra avançar na leitura mesmo não entendendo pra onde tudo aquilo iria, parabéns. É bem aí que você precisa se desarmar de qualquer expectativa. "Quem matou? Ele vai voltar? Tem algum grande segredo que é a chave pra solucionar...?" Não. Nada disso. Existem pequenos segredos (ou melhor, "verdades esquecidas") de cada um dos supostos "sucessores" de Barry, mas servem de apoio para que as relações relações familiares e conjugais sejam exploradas.

Se o intuito de J.K. Rowling era sair do estigma de "autora do Harry Potter", ela conseguiu. O linguajar aqui é pesado, há bullying, estupro, uso de drogas, suicídio, entre outros. Se foi bem sucedida na sua nova criação... ai são outras, literalmente, 500 páginas. Apenas não é justo tirar o crédito da qualidade literária. Os capítulos são muito bem escritos, concisos e nada é deixado de lado. Até as últimas 3 páginas, a história ainda se desenrola e é trabalhada. Tudo é muito bem arrematado. O que muda de leitor para leitor é o gosto. Talvez esse tipo de história funcione para alguns e não muito para outros. Pra mim, por exemplo, não funcionou. Não é o tipo de leitura, ou até de filme e série, que eu gosto.

(São páginas e mais páginas que se prendem em detalhes irrisórios de cada personalidade em vez de discorrer sobre os maiores acontecimentos. Mas, curiosamente, há um propósito pra isso: demonstrar o tamanho atraso de mentalidade daquele povo. Quando há uma morte, a dona de casa fofoqueira está preocupada com o que vão dizer do seu marido que pode perder votos.)

Em poucas palavras, mesmo quando a narração parece ligeiramente arrastada, a leitura flui. Mas são tantas outras qualidades na contramão, que resumir a experiência de "Casual Vacancy" em ruim não é o correto.

Mais do que um livro sobre tragédias (e muitas), Morte Súbita se revela um triste romance sobre o poder da intriga e a capacidade da mesquinhez humana.

"Shirley era de opinião de que o passado se desintegra quando a gente não o menciona." E você?


Nota:

E há 13 anos eu voltava da Saraiva super ansioso e abria o 1º livro da série. E, sem saber, intensificava ainda mais um hábito que eu já tinha mas não era tão regular. Foi naquela mesma época que muitos como eu abriram a imaginação e até hoje sentem um pequeno frio na barriga ao ouvir "You're a wizard, Harry!" Talvez eu não seja o único que se lembre disso ao ler qualquer livro. Hoje, dia 31 de julho, a autora daqueles três que cresceram com a gente faz aniversário. E muitos bons momentos da minha infância eu devo a ela! Parabéns, J.K. Rowling!







Simplesmente Feliz



Pessoas felizes têm problemas? Ou elas apenas os ignoram? É possível ser feliz vivendo no seu próprio País das Maravilhas?

"Simplesmente Feliz" (Happy-Go-Lucky) apresenta Sally Hawkins como Poppy, uma jovem extremamente otimista que chegou à casa dos 30 como se tivesse 15. Sua vida é divida basicamente entre dar aula a crianças, ir a algumas festas, conversar com os amigos em pequenas reuniões, aprender Flamenco e ter aulas de direção. Nada fora do comum, não fosse por sua incrível capacidade de achar uma felicidade intensa nas pequenas situações do dia-a-dia.

A professora primária segue sua vida da forma mais leve possível. É a partir desse caminho meio tortuoso (pra alguns) e cheio de risos que conseguimos entender qual sua reação pra cada tipo de situação ou pessoa.  Poppy conversa com um mendigo no meio da noite, acha graça do chapéu do atendente de uma livraria, conversa sozinha quando sua bicicleta é roubada e encontra seu oposto de personalidade no instrutor de auto-escola, Scott (Eddie Marsan), com quem mantém uma relação no mínimo complicada.




É preciso ter calma pra captar, no entanto, que ali não é importante o drama, os "grandes momentos" ou as inúmeras possibilidades de história que até poderiam ter sido exploradas. A narrativa do filme é um tanto delicada nesse sentido. Mas é exatamente essa escassez de "conflito" responsável pelo impacto na hora certa.

Muitos classificam o longa do diretor Mike Leigh, indicado ao Globo de Ouro de 2008 nas categorias de melhor filme e melhor atriz, como sem graça ou "abobalhado". Mas será que é tão difícil assim tentar compreender seu propósito ao invés de xingá-lo injustamente de bobo? Bobo é quem não se dá conta de tudo aquilo que é dito ali de forma tão real e tão simples.

Então, volto nas primeiras perguntas... Pessoas assim sofrem? Pelo simples fato de me fazer questionar algo, a história me encantou. A composição da personagem é perfeita: estabanada, impulsiva, honesta e distraída... mas um tanto ciente e esclarecida quando a realidade a chama de volta. Poucas atrizes conseguiriam transmitir essa rara forma de bondade depositada apenas no olhar.

No mundo dela, não podemos fazer todo mundo feliz, mas pelo menos podemos tentar. Nós mesmos fazemos nossa sorte. Bom, alguns. Outros apenas "perdem o barco totalmente".


Um dia a ser lembrado



Dia 31 de janeiro de 2014. 11 da noite. Simples assim.

Ainda haverá o dia em que isso será tão comum que ninguém mais prestará atenção. E o mais engraçado? Há quantos beijos héteros os gays "sobreviveram" e nunca disseram nada? Isso os feriu? Por quê esse haveria de ferir aos outros?

E mais... Quantas crianças já possuem ciência de que elas são "diferentes" (mesmo que não em um nível tão sexual) e crescem em um ambiente assim tão absurdo? Uma sociedade em que o correto é apenas ser o que você não é. Elas se tornam adolescentes angustiados e sem um único momento de paz interior. Não vivem bem. Se isolam. Se torturam mentalmente por conta disso. Dia-a-dia. Demoram a ter amigos que também são assim ou que os "aceitem". E isso? Não é violência???

Aquelas crianças que são héteros, permanecerão héteros. Não vão mudar. Qual a razão de não enxergarem um fato tão óbvio? E os pais que estão preocupados com os filhos? Estão preocupados, então, por puro medo ou ignorância em saber explicar de uma forma leve. A estes... lhes ocorreu que no futuro talvez nem seja necessário explicar? Não seria bem melhor? Então qual o problema? E se isso os aterroriza tanto, certamente alguma questão íntima tem de ser resolvida. Afinal, um assunto qualquer só tem o poder de incomodar tanto assim quando ele diz algo a respeito de você mesmo. Não é?

Vivi pra ver o dia em que o primeiro beijo gay aconteceu em uma novela das 9 na Globo.
Falta muito ainda. Mas aconteceu.
Amor à Vida sempre será lembrada por isso. 
Ai sim eu tiro o chapéu. 
#BeijaFelixENiko
Obrigado, Walcyr.

A Estrutura do Caos


Há tempos que algumas declarações lidas em redes sociais têm me incomodado muito. Vou começar com uma bem básica que me provocou um nojo extremo:

"O ódio gratuito que o brasileiro tem do Pelé tem uma justificativa: vivemos num dos países mais racistas do mundo"

Não discutir com gente que consegue fazer de uma declaração real justificativa tão podre pra algo é uma arte. O Brasil é um país com preconceito racial? É. Infelizmente. Quando você acha que vive em uma nova era, é forçado a ouvir comentários diários, por vezes de crianças, que te fazem ficar descrente quanto a qualquer mudança. Essas crianças citadas, por exemplo, provavelmente ouviram dos pais. Elas já crescem em um ambiente condicionado a achar que aquilo é verdade e o ciclo nunca termina. Essa falta de educação é a raiz de qualquer problema e todos sabem. O efeito dominó da ignorância é triste. É absurdo. Revolta. Mas todos se esquecem de que o Neymar, ao que consta, também é negro e é ídolo de muitos já. O garoto é um exemplo de vitória e humildade. E ai? Preconceito, também? Algumas pessoas não gostam do Pelé. Tirando aqueles que não gostam por de fato serem preconceituosos, os outros não podem deixar de gostar por outros motivos?

Dentro dessa discussão interminável surgem justamente os esquerdistas de sofá. São esses que, por se acharem muito liberais criam uma incrível mania de abrir a boca, ou melhor, de digitar as piores incoerências. Os queridos e famosos reacionários equivocados de Facebook não aguentam ficar sem se expressar quando o assunto é "arruaças" também. Os "arruaceiros" não podem ser chamados de "gentalha". Não. Mas quem se opõe a esse tipo de comportamento é chamado de fascista:

"Gentinha"? "Gentalha"? Pode até não se dizer fascista, mas no mínimo muito preconceituoso!"

Engraçado como ambos os autores das frases (reais) se esquecem de que cor ou qualquer outro atributo/status não definem caráter ou índole. NÃO DEFINEM. Suzane Richthofen era rica, branca e loira e matou os pais. "Tá dizendo isso porque é preconceituoso com quem é pobre e não tem condições!", comentam sobre o assunto do começo do ano, o "rolezinho". Ora, não têm condições de comprar nada, mas de fazer baderna onde não é pra fazer, têm! Aos que forem contra, calma, leiam o resto também.

Acesso é um direito sim, diferente de desordem pública. A ninguém pode ser negado. Indiscutível. Ditadura passou. Mas por qual motivo, então, as bibliotecas, teatros e livrarias nunca são alvos destas ocorrências? Manifestação é um direito Constitucional. Mas e quando é feita de má fé? Qual o problema de se ir sozinho ao shopping? Ou organizar um passeio coletivo pacífico que seja? Precisa ir em multidão tão tamanha se não é pra causar confronto obrigatório? Existem diversos centros de lazer que são frequentados tanto por classe média alta quanto pela população com condições financeiras inferiores e nunca necessitaram da intervenção policial. E ai?

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Vídeo amador de um dos "rolezinhos" em um shopping de São Paulo

Por outro lado, sempre haverá injustiça. Pessoas que não causaram a violência ou não tinham a intenção sofrem junto. Quem se uniu ao passeio pensando ser algo comum, movido pela força da massa, acabou passando pelo susto e pela correria. Pelas bombas noticiadas na televisão. Ou pelo dano moral de ser barrado ou selecionado na portaria sem ter feito nada. E nesse caso, nunca se sabe quem começou o quê. Se a polícia foi realmente injusta (convenhamos, isso também não é nenhuma novidade no Brasil), se aquele comportamento é em consequência do alvoroço e do caos de outros lugares ou se realmente aconteceu algo -- como no vídeo acima.

É fácil se rebelar e classificar tudo como preconceito sem ter presenciado nada, não é? Ou então, sem ter visto pelo menos 1 vídeo no Youtube gravado de forma amadora. Gente tirando a camisa e chutando ela no ar. Jovens gritando por achar isso engraçado. Chutes em viatura e empurrões nos policiais... Diga-me... a injustiça é dos pobres moços que estavam fazendo isso ou das famílias, por exemplo?

Se defender o direito de qualquer um de passear em um lugar com gente que saiba se comportar é ser fascista, como disse nosso querido autor da frase ali em cima, realmente, o mundo deve viver em uma anarquia sem limite. Se ter que aceitar maus modos é ser tachado como preconceituoso, então a realidade se subverteu. Qual a mentalidade do ser humano hoje em dia?

Branco, negro, hétero, gay, evangélico, rico, católico, azul, pobre, rosa, reza pra Khan todo dia antes de dormir, aprendeu Klingon, assiste Grey's Anatomy, solta fogos no Natal em vez de ser no Ano Novo ou faz medicina... Qualquer que seja a atribuição... Se não sabe seguir as regras mínimas de respeito e convivência em sociedade, tem que ser repreendido sim! E isso vale até para os policiais que agiram fora da razão. Antes de defender quem faz arruaça e baderna só por chocar, adote um e coloque na sua casa por uma semana. Antes de se posicionar a favor de quem cria levantes não tão pacíficos, esteja lá pra presenciar os estouros e as agressões geradas. Imagine ter que explicar aos seus filhos ao chegar em casa o que foi tudo aquilo e ter de os acalmar. Ai quero ver.