Os Caminhos da Glória
Um Filme Pra Se Prestar Atenção“The boast of heraldry, the pomp of pow’r,
And all that beauty, all that wealth e’er gave,
Awaits alike th’inevitable hour.
The paths of glory lead but to the grave”
Elegia Escrita Num Cemitério Campestre –
Thomas Gray*
Glória Feita de Sangue é um filme de 1957 tido como referência no gênero dramático de guerra. Dirigido por Stanley Kubrick [um dos seus primeiros] em base no romance de Humphrey Cobb ambienta-se na Primeira Guerra Mundial durante a Guerra das Trincheiras e tem seu eixo na seguinte proposta: um general francês ordena um ataque visivelmente impossível e suicida sobre um território ocupado pelos alemães. Como se livrar da responsabilidade e da insensatez do ato? Espelhando-se no título original, Paths of Glory, como trilhar esse mesmo “caminho” sem nenhum sangue pelo histórico?
O discurso inflamado daqueles que só mandam atrás de uma mesa é expelido como exemplo durante o contraste precioso proporcionado pelo preto e branco nos sulcos das trincheiras. O realismo dos closes e dos diálogos fortes deixa em evidência essa obediência humilde dos soldados. As cenas aéreas noturnas nos campos de batalhas combinadas com a trilha sonora militar/suspense fazem o realismo subir ainda mais e o expectador se aproximar daquilo como em um 3D emocional [vale clicar nas imagens para ampliá-las em outra janela].
O efeito de demonstrar a injustiça e causar indignação não pára por ai. O um terço restante de sobreviventes do batalhão fica mobilizado pelo intenso tiroteio e desrespeitando uma ordem direta do superior não avançam. A resposta pra isso vem igualmente dele: atirar em direção do próprio pelotão e fazê-lo andar, mas os comandos não são seguidos. Atirar nos próprios homens é um ato de vandalismo, cruel, vil. Mais baixo ainda é apanhar três homens inocentes em seguida para servirem de exemplo e serem fuzilados pós-julgamento por covardia frente ao inimigo. Se é só uma amostragem, qual o motivo de serem presos e mortos? Ainda que não fosse uma simples amostragem. “A impossibilidade [de avançar no campo] só poderia ser provada com os corpos [dos próprios] [já] mortos nas trincheiras”, esse é o fundamento.
* O livro em que o roteiro foi baseado ainda não tinha um título. O poema de Thomas Gray [1716-1771] que dialogava com imagens da guerra e da glória foi sugerido por uma competição mantida pelo editor e ganhou. Em tradução "livre" para o português, por Marquesa D'Alorna [conhecida como a poeta "Alcipe" 1750-1839]:
Vanglória de alta estirpe protectora,
Tudo quanto a beleza e bens nos deva,
Da morte espera a inevitável hora:
Da glória a estrada à sepultura leva.
Note que infelizmente alguns jogos de palavras foram perdidos. "The pomp of pow'r" Power = poder. / Pow = P.O.W = Prisioner of War = Prisioneiro de Guerra.









