Cinquenta Tons Mais Escuros


...e BEM MAIS CHATOS


[Escrevo o post em homenagem a um pequeno troll em descontentamento com a própria vida que um dia, há um bom tempo, me repreendeu e disse que críticas devem ser boas. Well, my dear, críticas não são apenas boas. Todos sabem disso. E mesmo que fossem, no meu blog eu escrevo o que eu quero. Prazer.]

Imaginar um personagem que carrega fortes traumas psicológicos deve ser tão instigante a um autor! Rascunhar os problemas da infância à fase adulta, poder pesquisar sobre algum assunto específico, expor o combinado de informações em suas páginas... Fazer da sua obra uma forma coesa e diferente de enxergar o mundo e as pessoas... Tristeza e medo. Pavor. E romance, claro. Provavelmente, em segundos, você imaginou TUDO o que E. L. James NÃO conseguiu imaginar. O segundo volume da trilogia "Cinquenta Tons" pairou pela minha estante e pegou pó por muitos meses. Comecei a ler quando ainda estava na faculdade. E não me pergunte a razão disso. Mas li. Assumo. E só fui terminar mais de um ano depois de ter concluído meu TCC.

A primeira meta da continuação era justamente mostrar o que aconteceu depois do "tórrido" término do casal. Isso é fato. Pois bem. NADA. Não aconteceu nada. Anastasia Steele cai novamente na lábia de Christian Grey como se fosse uma adolescente super ingênua de 15 anos e logo nas primeiras páginas a sensação de suspense acaba. Como perder um bom gancho pra uma continuação? Fazendo isso. Desfazendo-se gratuitamente de um de seus pratos principais. É quase como se Harry Potter conseguisse matar Voldemort logo no segundo livro e passasse os outros cinco se interrogando sobre sua incrível persona. Ou complicando o que não precisa ser complicado.


Overdose de tédio, redundante ou não, é a expressão que traduz a história. A sensação é de uma novela escrita por 5 pessoas ao mesmo tempo em que nenhuma se comunica e precisam preencher quase 500 páginas com diálogos de "bom dia" e sugestões de combinações de saias.


"Acho que vou colocar uma calça, pois saia coloquei ontem e refletirá o quanto estou cansada das investidas de meu chefe contra meu corpo loucamente sedutor que ele deseja diariamente atrás de sua mesa grande e cinza. Mesa redonda, inclusive. Mesa que Christian possui igual. Não sei o motivo. Comprou uma vez quando estava entediado com o trabalho e não tinha nenhuma submissa ao seu lado. É assim que as chama, não é? Odeio como as chama. Odeio o fato de que já existiram. Mas voltando ao assunto que comecei no parágrafo mas desfoquei como se não houvesse amanhã... Meu chefe, no entanto, também veste calça. Ela é muito folgada. Christian não gosta de meu chefe. Christian franze aqueles olhos sedutores quando vê meu chefe e tenho vontade de sair saltitante ao vê-lo com ciúme. Será que é ciúme? Será que gosta mesmo tanto de mim assim? O tempo voa quando penso nisso. Mas ele veste calça. E muito solta. Então vou ficar com a saia. Mas Christian pode não gostar. Calça ou saia? Saia." O trecho saiu da mente do autor do blog, mas a ideia não. São parágrafos e mais parágrafos seguindo essa linha narrativa repetitiva (que acredito nitidamente não ser culpa da tradução nem quando diz respeito aos pronomes usados de forma péssima). E não, Anastácia, você não vai perder o emprego! Seu namorado é milionário e controla a empresa em que você trabalha! Te demitir não passa nem de longe pela cabeça dele! Essa mesma dúvida até o capítulo cinco, ok, mas o pensamento reverbera até perto do dezessete. Algo está errado com o leitor se ele não perceber isso, ainda que tenha muita boa vontade.


Na lista de proezas literárias, é praticamente absurda a maneira em que a narração toma alguns goles de dupla personalidade. Em vários trechos o texto é tão pobre que nem a sua já famosa repetição é mais um incômodo. Não são mais as cinquenta vezes em que Christian contrai os lábios numa "linha rígida" ou as outras 500 cenas de sexo descritas apaticamente da mesma forma que irritam. O que leva à loucura é ler passagens como: "É a natureza em seu auge, uma sinfonia visual orquestrada no horizonte e refletidas nas profundas águas mansas do estuário". Esse trecho é real e não saiu da mente do autor do blog. De escola primária a Van Gogh??? O texto todo permanece em um desnível tão gritante que mesmo com um andamento ágil da trama (o que -- deixo bem claro -- NÃO EXISTE), tudo perde a credibilidade.

Pontos importantes que deveriam ser desenvolvidos, no entanto, como uma conversa com o psiquiatra de Grey, são deixados de lado enquanto... em outras 10 páginas há a descrição de como se chupar um aspargo. Ou de como a vontade de "se abraçar" (?) é recorrente por acertar a compra de um presente perfeito. E claro, também é impossível levar a sério alguém que está presa em um quarto de sadomasoquismo, percebe o som ligando e pensa "É música para fazer amor!"


O primeiro livro (clique aqui para ler sobre) pode até funcionar, mesmo sendo relativamente pobre. O segundo... não. Nem um pouco.

Pensei em nenhum título




 

            Viewer discretion advised: Os personagens descritos são puramente fictícios e não possuem qualquer semelhança com a realidade.



Ele não sabia. Era essa sua sensação. Um imenso vazio que transbordava em olhares vagos. Nada de novo para dizer. Nada de novo para pensar. Não suportava ninguém. E ninguém lhe suportaria. As discussões que cessavam em períodos de silêncio sobre estar certo ou não de seus próprios sentimentos? Já lhe cansavam. Eram absurdas e só havia incompreensão. A moda nem tão recente de botar glamour nos desencantos tampouco lhe soava brilhante como antes. Coisa de adolescente, pensava.
Seus dezoito anos tinham se passado e estava exausto, mesmo sem saber, de criar subterfúgios invisíveis para controlar suas ausências. Ausência de amigos, de palavras, de sorrisos, de leveza e de lugares para ir. Cinco incógnitas aparentemente simples mas que se condensavam em uma irrisória porcentagem da lista na íntegra. Como tinha chegado ali? Não sabia. Ou fingia não saber. Carregar uma dose de amargor insuportável, um humor de toque senil, anacrônico, não precisava ser investigado. Existia, era o suficiente.
                Olhava ao seu redor e já não se conhecia. Seus sonhos dentro daquele quarto, ilustrados em forma de discos e livros, iam se congelando aos poucos. Itens plásticos de amizade. Estimas compráveis. Tudo parecia resquício de uma vida pausada temporariamente. E por consequência, temporariamente desperdiçada.
                Com o tempo, a ignorância admitida desse desassossego não lhe trazia mais alívio e a abdicação diária fazia crescer sua prisão mental. Entre livros abandonados e bebidas pela madrugada, a humanidade ganhava e perdia contorno. Eram eles os complicados? Ou era ele o louco?
Sua tamanha falta de perspectiva o tornou ciente de que não se conhecia. Ou não se conhecia mais, ocorrência presente na batalha tão bem conhecida dos calados.
Bem compreendido e de plena consciência, ao menos isso, sempre fora. “De mim, sei”, falava equivocadamente consigo.
O problema, no entanto, era justamente falar consigo. E apenas consigo. Em meses de isolamento firmara um conceito de autoconhecimento inquebrável. Identificara aquilo e o tinha posto como seu horizonte. Uma presunção que lhe ajudava a continuar, mas não o fazia melhorar. De mim sei e silêncio. De mim sei e parou.
Quanto mais hábil em deixar-se esquecido, menos se permitia olhar ao redor e ver que nem todos o decepcionariam como já tinha acontecido tantas vezes. A confiança, mesmo que rara, podia existir. Sabia de tudo e não sabia disto?
E seu erro, naquela época, perdurou por esse caminho.
Seu erro era saber.
Saber que o mundo mudava. Escrever sobre isso em suas folhas escondidas. Mas esquecer-se de que ele também fazia parte daquele mundo.
Provavelmente perceberia isso um pouco mais tarde.
(Com a ajuda extremamente importante de um coadjuvante fixo que viria a agradecer futuramente, mas sem jamais assumir isso. Talvez em formato de post.)
Bem, antes tarde que nunca.

O personagem virou um cineasta famoso, rico e bem casado com o coadjuvante fixo. Com dois bebês lindos.

THE END.




CHEEK TO CHEEK



Convencionou-se falar mal dos artistas. Em alguma esquina da ignorância isso virou hype. Ficou cool. Um comportamento tão ridículo e tão triste que me faz pensar: pra onde vai a cultura? Se já não se pode esperar muito das gravadoras... nem do próprio público? Qual o problema das pessoas? Perdeu-se o bom gosto? Gente melhor está nascendo ainda? Podemos ter esperança? Foi esse pensamento que eu tive ao ver uma das melhores surpresas do ano tomando forma e comentários surgindo pela internet antes mesmo do lançamento.

Lady Gaga finalmente resolveu mexer os discos sticks e lançou seu novo trabalho, um álbum de jazz, dia 19 de setembro, como prometido. Em colaboração com o cantor Tony Bennett, o disco estreou em primeiro lugar na parada de álbuns da Billboard. Bem diferente da divulgação de ARTPOP que (infelizmente e inexplicavelmente) durou até o segundo e único clip, "Cheek To Cheek" parece receber uma atenção maiorzinha.

O trabalho já era ideia desde 2011 quando gravou "The Lady Is a Tramp" ao lado de Tony para o álbum dele, "Duets II". O que contradiz os comentários de que "ela não sabe mais para onde ir". Foi, então, no especial televisivo de Ação de Graças "A Very Gaga Thanksgiving", do mesmo ano, que mais um repertório de jazz foi colocado em teste e virou um EP - A Very Gaga Holiday.




A nova era de "Cheek To Cheek" teve os 2 primeiros "singles" divulgados no Youtube entre o final de julho e agosto. Na ordem, "Anything Goes" (versão da original de 1934 por Cole Porter do filme homônimo) e "I Can't Give You Anything But Love" (de 1928, uma canção popular no mundo do jazz composta por Jimmy McHugh e que já teve até Judy Garland como intérprete). Ambas as melodias também ganharam um videoclip construido com as imagens de estúdio pouco tempo depois. E o mais engraçado? Mesmo àqueles que não curtem/curtiam esse estilo musical, elas são marcantes. Definitivamente não passam como "mais uma do mesmo". Aliás, característica visível em todas as novas gravações.

Outra canção que apareceu antes do lançamento da tracklist no iTunes foi "Nature Boy", de Nat King Cole, bem famosa entre os cinéfilos das últimas gerações por estar em "Moulin Rouge!" na voz de David Bowie. Mas as referências ao cinema não são apenas estas. Entre os destaques, é impossível não citar a faixa-título, "Cheek To Cheek" (do filme "O Picolino", com Fred Astaire), o exemplo mais claro do quão nova, doce, afinada e intimista a voz de Gaga fica ao lado de Tony. A amizade e o carinho dos dois realmente parecem refletir em cada nota.

No "top 8" das favoritas do autor do blog também aparece a canção "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", originalmente gravada por Cher em 1966 e no mesmo ano aclamada na voz de Nancy Sinatra (versão que aparece na abertura do filme "Kill Bill"). Infelizmente, a faixa não é bônus na edição brasileira. E por último, as melancólicas "Lush Life", "Ev'rytime We Say Goodbye" (gravada por ínúmeros artistas, incluindo nomes como Ella Fitzgerald, Diana Krall, Rod Stewart e Robbie Williams) e But Beautiful (que também ganhou video no youtube com a performance ao vivo).




Little Monster ou não, o que realmente importa é ouvir a música antes de dizer qualquer coisa. Ter uma opinião sobre aquilo. Deixar-se contagiar. Conhecer. Pesquisar. Ir atrás daquilo que é novo e que pode, sim, agradar. 

A façanha de levar um outro gênero musical aos seus fãs já foi perfeitamente concluída.

(E entrar na loja e saber que o disco está vendendo bem e sendo procurado é um gostinho a mais.)

Que venha mais do pop e mais do jazz!
.

Sem título. Uma nota qualquer.


Saudade. Saudade de como eu era, de como eu via as pessoas. Dos abraços apertados, dos frios na barriga, das coisas novas e dos presentes. De dizer oi, de me despedir e sufocar todas as minhas rasas preocupações nos compromissos daquele dia. Viver tudo intensamente pra poder acordar e começar de novo. Trabalho, faculdade, amigos e amores. Fosse como fosse. Mas que fosse. Os perfumes. A empolgação. As sensações. As distrações. E o sorriso.

As pessoas dizem que nós mesmos escolhemos os caminhos. Um lindo pensamento, mas uma grande injustiça. Fui eu mesmo quem espantou todas essas coisas? Detalhes que hoje eu desconheço por me desconhecer. E não são poucos.


Sabe aquelas passagens ridículas e sem importância que a gente se lembra por nada? Esses dias me ocorreu o quanto eu reclamava por ter o terrível hábito de marcar músicas e discos à pessoas e lugares. Algumas canções foram definitivamente arruinadas por isso, outras ainda guardo como uma boa lembrança. Uma decepção ali, um aprendizado aqui e uma estabacada mais adiante. Mas isso acontecia pelo menos. O que eu fiz com esse hábito que nunca mais apareceu? É como se tudo tivesse parado de repente. Eu parei de criar memórias? Com a minha idade eu consegui fazer isso???

Sinto falta de tantas coisas que já não consigo nem enumerá-las mais. Foram todas decisões erradas que eu tomei pra chegar nisso? Será que alguma pelo menos eu acertei? Pode ser temporário, quem sabe uma crise dos vinte-e-poucos, ou mesmo algo que no fundo eu saiba o motivo.

Mas eu ando sentindo uma incrível vontade de encontrar aquele lá,
aquele que guardava os cds no guarda-roupa pra nunca mais ouvir (mesmo sabendo que o nunca acabaria dalí alguns meses), e dizer pra ele voltar.
E ficar.

A Vida Trouxa



Conseguir concluir um livro depois de uma longa lista de volumes abandonados é quase como o Brasil NÃO levando 7 a 1 na Copa e a torcida levantando. E não é que eu consegui?

Morte Súbita, lançado em 2012, conta a história dos moradores de uma pequena cidade chamada Pagford. Barry Fairbrother morre por um aneurisma na 1ª página e deixa vago o seu lugar no conselho Distrital. Uma eleição é convocada e os problemas começam, já que seres-humanos são... Enfim, são o que são.  Basicamente esta é a sinopse. Nada mais complicado.

O que começa a complicar, porém, é a quantia excessiva de personagens. Esse fator chega a ser, confesso, um pouco irritante. É preciso calma. Não que isso seja um impecilho pra uma boa leitura, ou mesmo que seja difícil. Não é. E se você não está acostumado com algo assim, logo fica. O problema é a apresentação deles. Cada um dos núcleos (eu contei em torno de 7) são jogados a cada "semi-capítulo" novo, ou seja, de 2 em 2 páginas. Sem tempo pra respirar. Não é nada progressivo. E são dados nomes a personagens que nem aparecerão depois. Ou aparecerão, mas só no finalzinho. Portanto, um bloco de notas nesse momento é sempre bem-vindo. Um bloco de notas e seu bom-senso, claro.

O livro só começa a tomar forma depois de 80 páginas. Então, se você foi perseverante o suficiente pra avançar na leitura mesmo não entendendo pra onde tudo aquilo iria, parabéns. É bem aí que você precisa se desarmar de qualquer expectativa. "Quem matou? Ele vai voltar? Tem algum grande segredo que é a chave pra solucionar...?" Não. Nada disso. Existem pequenos segredos (ou melhor, "verdades esquecidas") de cada um dos supostos "sucessores" de Barry, mas servem de apoio para que as relações relações familiares e conjugais sejam exploradas.

Se o intuito de J.K. Rowling era sair do estigma de "autora do Harry Potter", ela conseguiu. O linguajar aqui é pesado, há bullying, estupro, uso de drogas, suicídio, entre outros. Se foi bem sucedida na sua nova criação... ai são outras, literalmente, 500 páginas. Apenas não é justo tirar o crédito da qualidade literária. Os capítulos são muito bem escritos, concisos e nada é deixado de lado. Até as últimas 3 páginas, a história ainda se desenrola e é trabalhada. Tudo é muito bem arrematado. O que muda de leitor para leitor é o gosto. Talvez esse tipo de história funcione para alguns e não muito para outros. Pra mim, por exemplo, não funcionou. Não é o tipo de leitura, ou até de filme e série, que eu gosto.

(São páginas e mais páginas que se prendem em detalhes irrisórios de cada personalidade em vez de discorrer sobre os maiores acontecimentos. Mas, curiosamente, há um propósito pra isso: demonstrar o tamanho atraso de mentalidade daquele povo. Quando há uma morte, a dona de casa fofoqueira está preocupada com o que vão dizer do seu marido que pode perder votos.)

Em poucas palavras, mesmo quando a narração parece ligeiramente arrastada, a leitura flui. Mas são tantas outras qualidades na contramão, que resumir a experiência de "Casual Vacancy" em ruim não é o correto.

Mais do que um livro sobre tragédias (e muitas), Morte Súbita se revela um triste romance sobre o poder da intriga e a capacidade da mesquinhez humana.

"Shirley era de opinião de que o passado se desintegra quando a gente não o menciona." E você?


Nota:

E há 13 anos eu voltava da Saraiva super ansioso e abria o 1º livro da série. E, sem saber, intensificava ainda mais um hábito que eu já tinha mas não era tão regular. Foi naquela mesma época que muitos como eu abriram a imaginação e até hoje sentem um pequeno frio na barriga ao ouvir "You're a wizard, Harry!" Talvez eu não seja o único que se lembre disso ao ler qualquer livro. Hoje, dia 31 de julho, a autora daqueles três que cresceram com a gente faz aniversário. E muitos bons momentos da minha infância eu devo a ela! Parabéns, J.K. Rowling!