Marco Polo


Marco Polo, ao que se sabe, foi um famoso mercador viajante habilidoso na observação detalhista de outras culturas e territórios. Nascido em março de 1254 em Veneza (teoria aceita por muitos biógrafos, embora seja possível encontrar diversas outras referências pela internet), foi responsável pelo controverso conteúdo de "O Livro das Maravilhas", volume presente na cabeceira de Cristovão Colombo e que o influenciou a "descobrir" a América pensando ser a China.

Na série, perceber todas essas informações e outras peculiaridades com clareza é um tanto complicado. Se você não conhece a história, só consegue saber do momento em que Marco (Lorenzo Richelmy) chega à corte do rei mongol Kublai Khan, e que esse rei é neto de Gengis Khan. Entender exatamente quem é o mercador ou o quê fará ali depois de ter sido abandonado pelo pai e pelo tio são incógnitas.

A história não é lá tão ágil em termos de roteiro nos primeiros 4 episódios. É preciso mais do que atenção e um pouco de paciência. A apresentação dos personagens é um tanto confusa (mesmo tendo gostado muito da série, preciso admitir), não há tempo suficiente para seguir cada um deles e, por consequência, desenvolvê-los com mais calma. No entanto, o requinte cinematográfico digno de uma produção da HBO (sem tantas cenas de sexo) e o cuidado com as coreografias de luta são tão grandes... que os episódios (cada um com aproximadamente 1h) prendem gradativamente a atenção.



Vale ressaltar que Marco Polo se diferencia de outras séries históricas no que diz respeito à sua estrutura. Aquele padrão "americano" de séries blockbusters não existe. A produção assemelha-se sutilmente a uma minissérie e se desenrola em um outro ritmo. No episódio 5, "Hashshashin", um dos melhores na minha opinião, tudo começa a tomar forma e dá uma pequena guinada, provocando uma evolução significativa na construção do personagem e um contorno mais definido da premissa da 1ª temporada, fatos (provavelmente) responsáveis pela recepção um tanto negativa da mídia (algumas severas, incluindo equivocados comentários à nudez [?] e à exploração do sexo feminino [?], como no The Gardian ou The New York Times).

Em suma, o que mais atrapalha é a irregularidade. A simpatia prévia por pelo menos algum elemento (atores, cultura, época) é essencial, caso contrário, nada funciona, mesmo com a qualidade de produção. Assistir de mente aberta e com interesse na história é a chave para torná-la boa. Afinal, são apenas 10 episódios e a season finale é tensa o suficiente e digna para os fãs. (E o tema de abertura, para o autor do blog, é sensacional).

A primeira temporada completa está em exibição pela Netflix desde dezembro de 2014 e já foi renovada para uma segunda temporada com mais 10 episódios.


Cinquenta Tons Mais Escuros


...e BEM MAIS CHATOS


[Escrevo o post em homenagem a um pequeno troll em descontentamento com a própria vida que um dia, há um bom tempo, me repreendeu e disse que críticas devem ser boas. Well, my dear, críticas não são apenas boas. Todos sabem disso. E mesmo que fossem, no meu blog eu escrevo o que eu quero. Prazer.]

Imaginar um personagem que carrega fortes traumas psicológicos deve ser tão instigante a um autor! Rascunhar os problemas da infância à fase adulta, poder pesquisar sobre algum assunto específico, expor o combinado de informações em suas páginas... Fazer da sua obra uma forma coesa e diferente de enxergar o mundo e as pessoas... Tristeza e medo. Pavor. E romance, claro. Provavelmente, em segundos, você imaginou TUDO o que E. L. James NÃO conseguiu imaginar. O segundo volume da trilogia "Cinquenta Tons" pairou pela minha estante e pegou pó por muitos meses. Comecei a ler quando ainda estava na faculdade. E não me pergunte a razão disso. Mas li. Assumo. E só fui terminar mais de um ano depois de ter concluído meu TCC.

A primeira meta da continuação era justamente mostrar o que aconteceu depois do "tórrido" término do casal. Isso é fato. Pois bem. NADA. Não aconteceu nada. Anastasia Steele cai novamente na lábia de Christian Grey como se fosse uma adolescente super ingênua de 15 anos e logo nas primeiras páginas a sensação de suspense acaba. Como perder um bom gancho pra uma continuação? Fazendo isso. Desfazendo-se gratuitamente de um de seus pratos principais. É quase como se Harry Potter conseguisse matar Voldemort logo no segundo livro e passasse os outros cinco se interrogando sobre sua incrível persona. Ou complicando o que não precisa ser complicado.


Overdose de tédio, redundante ou não, é a expressão que traduz a história. A sensação é de uma novela escrita por 5 pessoas ao mesmo tempo em que nenhuma se comunica e precisam preencher quase 500 páginas com diálogos de "bom dia" e sugestões de combinações de saias.


"Acho que vou colocar uma calça, pois saia coloquei ontem e refletirá o quanto estou cansada das investidas de meu chefe contra meu corpo loucamente sedutor que ele deseja diariamente atrás de sua mesa grande e cinza. Mesa redonda, inclusive. Mesa que Christian possui igual. Não sei o motivo. Comprou uma vez quando estava entediado com o trabalho e não tinha nenhuma submissa ao seu lado. É assim que as chama, não é? Odeio como as chama. Odeio o fato de que já existiram. Mas voltando ao assunto que comecei no parágrafo mas desfoquei como se não houvesse amanhã... Meu chefe, no entanto, também veste calça. Ela é muito folgada. Christian não gosta de meu chefe. Christian franze aqueles olhos sedutores quando vê meu chefe e tenho vontade de sair saltitante ao vê-lo com ciúme. Será que é ciúme? Será que gosta mesmo tanto de mim assim? O tempo voa quando penso nisso. Mas ele veste calça. E muito solta. Então vou ficar com a saia. Mas Christian pode não gostar. Calça ou saia? Saia." O trecho saiu da mente do autor do blog, mas a ideia não. São parágrafos e mais parágrafos seguindo essa linha narrativa repetitiva (que acredito nitidamente não ser culpa da tradução nem quando diz respeito aos pronomes usados de forma péssima). E não, Anastácia, você não vai perder o emprego! Seu namorado é milionário e controla a empresa em que você trabalha! Te demitir não passa nem de longe pela cabeça dele! Essa mesma dúvida até o capítulo cinco, ok, mas o pensamento reverbera até perto do dezessete. Algo está errado com o leitor se ele não perceber isso, ainda que tenha muita boa vontade.


Na lista de proezas literárias, é praticamente absurda a maneira em que a narração toma alguns goles de dupla personalidade. Em vários trechos o texto é tão pobre que nem a sua já famosa repetição é mais um incômodo. Não são mais as cinquenta vezes em que Christian contrai os lábios numa "linha rígida" ou as outras 500 cenas de sexo descritas apaticamente da mesma forma que irritam. O que leva à loucura é ler passagens como: "É a natureza em seu auge, uma sinfonia visual orquestrada no horizonte e refletidas nas profundas águas mansas do estuário". Esse trecho é real e não saiu da mente do autor do blog. De escola primária a Van Gogh??? O texto todo permanece em um desnível tão gritante que mesmo com um andamento ágil da trama (o que -- deixo bem claro -- NÃO EXISTE), tudo perde a credibilidade.

Pontos importantes que deveriam ser desenvolvidos, no entanto, como uma conversa com o psiquiatra de Grey, são deixados de lado enquanto... em outras 10 páginas há a descrição de como se chupar um aspargo. Ou de como a vontade de "se abraçar" (?) é recorrente por acertar a compra de um presente perfeito. E claro, também é impossível levar a sério alguém que está presa em um quarto de sadomasoquismo, percebe o som ligando e pensa "É música para fazer amor!"


O primeiro livro (clique aqui para ler sobre) pode até funcionar, mesmo sendo relativamente pobre. O segundo... não. Nem um pouco.

Pensei em nenhum título




 

            Viewer discretion advised: Os personagens descritos são puramente fictícios e não possuem qualquer semelhança com a realidade.



Ele não sabia. Era essa sua sensação. Um imenso vazio que transbordava em olhares vagos. Nada de novo para dizer. Nada de novo para pensar. Não suportava ninguém. E ninguém lhe suportaria. As discussões que cessavam em períodos de silêncio sobre estar certo ou não de seus próprios sentimentos? Já lhe cansavam. Eram absurdas e só havia incompreensão. A moda nem tão recente de botar glamour nos desencantos tampouco lhe soava brilhante como antes. Coisa de adolescente, pensava.
Seus dezoito anos tinham se passado e estava exausto, mesmo sem saber, de criar subterfúgios invisíveis para controlar suas ausências. Ausência de amigos, de palavras, de sorrisos, de leveza e de lugares para ir. Cinco incógnitas aparentemente simples mas que se condensavam em uma irrisória porcentagem da lista na íntegra. Como tinha chegado ali? Não sabia. Ou fingia não saber. Carregar uma dose de amargor insuportável, um humor de toque senil, anacrônico, não precisava ser investigado. Existia, era o suficiente.
                Olhava ao seu redor e já não se conhecia. Seus sonhos dentro daquele quarto, ilustrados em forma de discos e livros, iam se congelando aos poucos. Itens plásticos de amizade. Estimas compráveis. Tudo parecia resquício de uma vida pausada temporariamente. E por consequência, temporariamente desperdiçada.
                Com o tempo, a ignorância admitida desse desassossego não lhe trazia mais alívio e a abdicação diária fazia crescer sua prisão mental. Entre livros abandonados e bebidas pela madrugada, a humanidade ganhava e perdia contorno. Eram eles os complicados? Ou era ele o louco?
Sua tamanha falta de perspectiva o tornou ciente de que não se conhecia. Ou não se conhecia mais, ocorrência presente na batalha tão bem conhecida dos calados.
Bem compreendido e de plena consciência, ao menos isso, sempre fora. “De mim, sei”, falava equivocadamente consigo.
O problema, no entanto, era justamente falar consigo. E apenas consigo. Em meses de isolamento firmara um conceito de autoconhecimento inquebrável. Identificara aquilo e o tinha posto como seu horizonte. Uma presunção que lhe ajudava a continuar, mas não o fazia melhorar. De mim sei e silêncio. De mim sei e parou.
Quanto mais hábil em deixar-se esquecido, menos se permitia olhar ao redor e ver que nem todos o decepcionariam como já tinha acontecido tantas vezes. A confiança, mesmo que rara, podia existir. Sabia de tudo e não sabia disto?
E seu erro, naquela época, perdurou por esse caminho.
Seu erro era saber.
Saber que o mundo mudava. Escrever sobre isso em suas folhas escondidas. Mas esquecer-se de que ele também fazia parte daquele mundo.
Provavelmente perceberia isso um pouco mais tarde.
(Com a ajuda extremamente importante de um coadjuvante fixo que viria a agradecer futuramente, mas sem jamais assumir isso. Talvez em formato de post.)
Bem, antes tarde que nunca.

O personagem virou um cineasta famoso, rico e bem casado com o coadjuvante fixo. Com dois bebês lindos.

THE END.




CHEEK TO CHEEK



Convencionou-se falar mal dos artistas. Em alguma esquina da ignorância isso virou hype. Ficou cool. Um comportamento tão ridículo e tão triste que me faz pensar: pra onde vai a cultura? Se já não se pode esperar muito das gravadoras... nem do próprio público? Qual o problema das pessoas? Perdeu-se o bom gosto? Gente melhor está nascendo ainda? Podemos ter esperança? Foi esse pensamento que eu tive ao ver uma das melhores surpresas do ano tomando forma e comentários surgindo pela internet antes mesmo do lançamento.

Lady Gaga finalmente resolveu mexer os discos sticks e lançou seu novo trabalho, um álbum de jazz, dia 19 de setembro, como prometido. Em colaboração com o cantor Tony Bennett, o disco estreou em primeiro lugar na parada de álbuns da Billboard. Bem diferente da divulgação de ARTPOP que (infelizmente e inexplicavelmente) durou até o segundo e único clip, "Cheek To Cheek" parece receber uma atenção maiorzinha.

O trabalho já era ideia desde 2011 quando gravou "The Lady Is a Tramp" ao lado de Tony para o álbum dele, "Duets II". O que contradiz os comentários de que "ela não sabe mais para onde ir". Foi, então, no especial televisivo de Ação de Graças "A Very Gaga Thanksgiving", do mesmo ano, que mais um repertório de jazz foi colocado em teste e virou um EP - A Very Gaga Holiday.




A nova era de "Cheek To Cheek" teve os 2 primeiros "singles" divulgados no Youtube entre o final de julho e agosto. Na ordem, "Anything Goes" (versão da original de 1934 por Cole Porter do filme homônimo) e "I Can't Give You Anything But Love" (de 1928, uma canção popular no mundo do jazz composta por Jimmy McHugh e que já teve até Judy Garland como intérprete). Ambas as melodias também ganharam um videoclip construido com as imagens de estúdio pouco tempo depois. E o mais engraçado? Mesmo àqueles que não curtem/curtiam esse estilo musical, elas são marcantes. Definitivamente não passam como "mais uma do mesmo". Aliás, característica visível em todas as novas gravações.

Outra canção que apareceu antes do lançamento da tracklist no iTunes foi "Nature Boy", de Nat King Cole, bem famosa entre os cinéfilos das últimas gerações por estar em "Moulin Rouge!" na voz de David Bowie. Mas as referências ao cinema não são apenas estas. Entre os destaques, é impossível não citar a faixa-título, "Cheek To Cheek" (do filme "O Picolino", com Fred Astaire), o exemplo mais claro do quão nova, doce, afinada e intimista a voz de Gaga fica ao lado de Tony. A amizade e o carinho dos dois realmente parecem refletir em cada nota.

No "top 8" das favoritas do autor do blog também aparece a canção "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", originalmente gravada por Cher em 1966 e no mesmo ano aclamada na voz de Nancy Sinatra (versão que aparece na abertura do filme "Kill Bill"). Infelizmente, a faixa não é bônus na edição brasileira. E por último, as melancólicas "Lush Life", "Ev'rytime We Say Goodbye" (gravada por ínúmeros artistas, incluindo nomes como Ella Fitzgerald, Diana Krall, Rod Stewart e Robbie Williams) e But Beautiful (que também ganhou video no youtube com a performance ao vivo).




Little Monster ou não, o que realmente importa é ouvir a música antes de dizer qualquer coisa. Ter uma opinião sobre aquilo. Deixar-se contagiar. Conhecer. Pesquisar. Ir atrás daquilo que é novo e que pode, sim, agradar. 

A façanha de levar um outro gênero musical aos seus fãs já foi perfeitamente concluída.

(E entrar na loja e saber que o disco está vendendo bem e sendo procurado é um gostinho a mais.)

Que venha mais do pop e mais do jazz!
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Sem título. Uma nota qualquer.


Saudade. Saudade de como eu era, de como eu via as pessoas. Dos abraços apertados, dos frios na barriga, das coisas novas e dos presentes. De dizer oi, de me despedir e sufocar todas as minhas rasas preocupações nos compromissos daquele dia. Viver tudo intensamente pra poder acordar e começar de novo. Trabalho, faculdade, amigos e amores. Fosse como fosse. Mas que fosse. Os perfumes. A empolgação. As sensações. As distrações. E o sorriso.

As pessoas dizem que nós mesmos escolhemos os caminhos. Um lindo pensamento, mas uma grande injustiça. Fui eu mesmo quem espantou todas essas coisas? Detalhes que hoje eu desconheço por me desconhecer. E não são poucos.


Sabe aquelas passagens ridículas e sem importância que a gente se lembra por nada? Esses dias me ocorreu o quanto eu reclamava por ter o terrível hábito de marcar músicas e discos à pessoas e lugares. Algumas canções foram definitivamente arruinadas por isso, outras ainda guardo como uma boa lembrança. Uma decepção ali, um aprendizado aqui e uma estabacada mais adiante. Mas isso acontecia pelo menos. O que eu fiz com esse hábito que nunca mais apareceu? É como se tudo tivesse parado de repente. Eu parei de criar memórias? Com a minha idade eu consegui fazer isso???

Sinto falta de tantas coisas que já não consigo nem enumerá-las mais. Foram todas decisões erradas que eu tomei pra chegar nisso? Será que alguma pelo menos eu acertei? Pode ser temporário, quem sabe uma crise dos vinte-e-poucos, ou mesmo algo que no fundo eu saiba o motivo.

Mas eu ando sentindo uma incrível vontade de encontrar aquele lá,
aquele que guardava os cds no guarda-roupa pra nunca mais ouvir (mesmo sabendo que o nunca acabaria dalí alguns meses), e dizer pra ele voltar.
E ficar.