MASTERPIECE



Mãos geladas. Levantar e pegar a bagagem. Cheguei. Já estou mais perto. Posso abraçar, ouvir, sentir e deixar de me preocupar. Foi só isso que imaginei. Não pensava em mais nada. Não pensava se estava bem vestido, com o cabelo arrumado ou sem olheiras. Aquelas eram memórias distantes. Memórias de outro aeroporto. Naquele momento só queria chegar rápido pra que eu pudesse cuidar de ti de perto.

Entre uma ligação cortada e uma atendida, eis que aquele rostinho lindo e cheio de sorrisos aparece entre as pessoas. Era tu. Nunca vou esquecer dos passos que dei e do que ouvi.

Nossas risadas durante a semana, as tuas principalmente, disseram tudo. Cada detalhezinho foi perfeito: nossas piadas internas, os cards sobre cinema guardados, você dizendo "organismo", nossa primeira viagem juntos, o jantar tão bem preparado, a sobremesa com carinho, o vinho, os personagens, os 5 L de água que consegui colocar na geladeira, as fotos e o ar-condicionado. Agora enquanto escrevo e relembro... bate uma saudade tão enorme de te olhar. Aliás, de te olhar e já saber o que você quer dizer sem precisar falar nada. Falta um chimarrão aqui pra me esquentar.

A dor da volta só me faz (também) pensar na alegria de te ver novamente, de te ver sempre. Os passos para a fila de embarque foram sufocantes. No coração e nos olhos... as lágrimas não conseguiram ficar escondidas. No fone de ouvido... uma música dizia algo como "from the moment I first saw you, all the darkness turned to white".

Todas as palavras somem quando tento dizer por aqui, mas saiba que você é sim merecedor e digno de atenção e carinho, pois recebo isso sempre de ti. Se sabes metade de tudo o que sinto e que quero fazer por você sempre (sempre sempre), já fico feliz.


Alguns momentos a gente sabe que nunca vai esquecer. Outros a gente tem a certeza disso antes mesmo de acontecerem.


Zukm.t, tt, ppb. Feliz aniversário, tt.

O Apanhador no Campo de Centeio


"...tudo quanto é peixe morre quando chega o inverno?"

Imagine um adolescente que é irritado, gosta de fazer bagunça e não liga para ninguém. Apesar de tanta revolta, ainda é um virgem de 17 anos. Assim é Holden Caulfield, o desordeiro sem causa que estuda em um famoso internato para rapazes e resolve abandonar o lugar em determinada noite depois de saber que provavelmente será reprovado e expulso. O medo do dia em que a notícia chegará aos seus pais leva o personagem criado por J. D. Salinger a uma pequena jornada pessoal.

Holden odeia gente velha, não gosta de seguir comportamentos habituais, fuma, bebe, é observador e critica quase o tempo todo a sociedade. Além disso, não gosta de cinema... "De cada dez pessoas que choram de se acabar com alguma cretinice no cinema, nove são, no fundo, uns bons sacanas" E detesta atores... "Pra começo de conversa, detesto os atores. Nunca se comportam como gente normal." Mas, incoerente como é (e como foi construido propositalmente), sabe nomes de filmes, peças e referências culturais.

O primeiro detalhe do livro é a narração em 1ª pessoa que demonstra claramente os modos e gírias da época (1951 - ano de lançamento). Desse modo, os parágrafos são chatos e um tanto "inoportunos" aos que buscam conteúdo logo de cara. No bom português, só existe reclamação! O problema é que, para quem está acostumado com algo mais literário -- por assim dizer --, esse jeito de narrar, se repetido à exaustão, cansa. E muito. Nas primeiras páginas ou troço que o valha, você acha um bocado de palavras como essas, mas um bocado mesmo, sabe? Pra chuchu. Fora de brincadeira. Mas o negócio é assim mesmo... Enchendo um bocado a droga de uma página que o valha... Verdade mesmo, sem ser sacana. Se você lê durante muito tempo, é bem capaz de sair falando igual.

A história toda gira em torno do aprendizado e passagem da adolescência para a vida adulta, isso é indiscutível, mas não existe nenhuma reflexão direta. O personagem atravessa todos os 26 capítulos conversando sobre momentos e pessoas que passaram por sua vida. É prolixo no auge e desvia de assuntos com uma capacidade incrível. Cheio de oralidades, tudo é muito cru. Não há pensamentos filosóficos ou alguma metáfora explícita. Pela metade do livro até é possível perceber um pequeno amadurecimento, mas bem rústico: o personagem está sozinho e às vezes se sente mal. "O troço me fez sentir deprimido e podre outra vez", ele diz. Longe de toda a juventude "esculachada" do internato, começa a sentir uma estranha espécie de compaixão pelos cidadãos que o cerca e conta mais sobre seus familiares -- sua relação com os irmãos, por exemplo. Os personagens vão aparecendo: as meninas que já gostou mas tentou respeitar, um par de freiras, a mãe de um conhecido do internato, dentre outros. Apesar de ainda carregar muitos preconceitos dentro de seus diálogos, com o tempo começa a se repreender por atitudes passadas.

Feito de "causos", não acontece nenhum evento crucial no livro e não existe clímax. O título é explicado apenas no final e deixa transparecer o lado um tanto inocente e bondoso do caráter de Holden. Um típico jovem que se queixa de tudo, mas sabe que no fundo boa parte de seus dilemas são diferentes do que pensa. Talvez o máximo que possa acontecer é você se acostumar com a aura da narração e deixar de achá-la tão irritante quanto no começo, fazendo com que o texto possua uma certa fluidez e o cinismo do personagem o torne, de uma maneira bizarra, cativante.

A razão de tamanho falatório e culto absurdo pelos fãs? Não sei. Talvez tenha se tornado cult pela polêmica. O personagem de Anthony Burgess em Laranja Mecânica possui diversos motivos para ser bem mais "fatal" e nem por isso levou tal fama. A impressão que tenho é a de que os assassinos de John Lennon e da atriz Rebecca Schaeffer (que possuiam uma edição da obra) -- ou até mesmo o responsável pelo atentado ao presidente Ronald Reagan -- não passaram das primeiras páginas.

"Entre outras coisas, você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco."

The Born This Way Ball 2012


O Show em São Paulo

Nunca senti uma vibe tão legal e agradável em nenhum show como o desse domingo, dia 11 de novembro de 2012. Lady Gaga em São Paulo. Era uma corrente tão positiva. De parceria. De paz. Sem gente homofóbica, preconceituosa ou imatura, nem nada disso... Fãs que conversavam entre si e se ajudavam... Chegaram a me oferecer lanche até! Brincávamos sobre tudo e era só sorrisos durante a música clássica para terminar a passagem de som. O público gritava quando propagandas e teasers do perfume FAME apareciam no telão. NENHUMA briga ou tumulto. E os lugares sendo ocupados pacificamente no Estádio do Morumbi enquanto Lady Starlight fazia sua performance. E, depois das 19h lotou bem mais do que todo mundo aguardava. Nem a chuva pesada que caiu no show de abertura do The Darkness conseguiu estragar e logo passou...

Como li em um lugar: "Gaga subiu ao palco às 21h05 e terminou a apresentação às 23h50, totalizando 2h45 de show – no Rio, foram 2h10." Tudo sem playback algum e aceitando opinião dos fãs sobre o que cantar nos "intervalos acústicos". Inclusive, riu e contou nas mãos enquanto lembrava se tinha falado tudo que falou aos fãs cariocas. "The Queen", que não apareceu no Rio, foi mais do que uma surpresa aos que amam a canção, como eu. Neste meio tempo, tudo indicava que "Princess Die" (ainda não lançada em disco) não apareceria, mas apareceu. Praticamente nada foi deixado de fora. O povo vibrava quando algumas de Fame e Fame Monster começavam. Era Telephone, Bad Romance, Just Dance, Lovegame, Alejandro...



A parte mais engraçada foi quando comentou que seus fãs eram os mais "sorrateiros" do mundo. "Gaga, eu te amo. Pode cantar Princess Die? Ou... Gaga, eu te amo. Pode tirar uma foto comigo?"

Gaga aceitou os presentes no "Poço dos Monstrinhos" (local mais próximo ao palco) e convidou alguns a sentarem do seu lado enquanto abria cada um sem pressa e com carinho. Leu uma carta dentro de uma caixa e colocou uma correntinha com o símbolo do infinito. Um outro presente foi atirado em sua direção e bateu no microfone, provocando um grande barulho. Alguns quiseram vaiar a atitude, mas logo ela ficou de pé, sorriu e disse tranquilamente: "Não, não façam isso, não! Eu estou bem, olha! Sério, estou bem!" Existia essa interação o tempo todo e, sim, era visível que não era forçado ou por questões de publicidade (mesmo que, de uma forma ou outro, envolva também).




O castelo do cenário era gigantesco e se abria no meio como em um castelo de bonecas. Com 3 andares ou mais, algumas músicas foram apresentadas dentro dele (como Fashion of His Love, na frente de um espelho) e até nas torres mais altas existentes de cada um dos lados. A iluminação foi perfeita. De tempos em tempos era roxo, azul, vermelho, laranja ou colorido. You and I foi uma que apareceu durante essa troca de cores e... não pude deixar de olhar para o céu iluminado naquela noite perfeita e pensar em alguém.


Rouco, exausto, ensopado, com fome e sem dinheiro, o importante é que também fui parte dessa história. Presenciei e tirei foto dos fãs no hotel onde estava hospedada horas antes. Boatos de uns dois paparazzi viraram lendas urbanas: afirmavam que a cantora tinha saido do edifício sem ninguém identificar e ido passear a pé pela Paulista.



Cheguei em torno das 2h00 da manhã em casa pelo trânsito em São Paulo. Mas fui. Me diverti e guardarei todos estes momentos para contar por ai.

Voltando ao (grande) Básico!


Era exatamente essa a sensação ao ouvir as músicas: alegria. Os fãs (até os semi-novos) precisavam disso, de um álbum coerente, concordante, marcante, contínuo. É novidade e a novidade é ótima. Lotus, a introdução que dá nome ao CD (e não é apenas uma "intro", mas uma música propriamente dita) já convida todos a participarem do "renascimento" da flor que resiste até às piores condições.

Acima de qualquer coisa, em Lotus há sentimento e melodia em cada canção. É visível o cuidado e a produção pra que aquilo fosse marcante. Existe uma certa dificuldade em escolher um simples Top 5 para as 17 músicas que fazem parte da Edição Deluxe, sendo uma remix. Sem dúvida as que já estão tocando no Repeat aqui são: Army of Me (descrito por ela como um "Fighter" 2.0), Your Body (single de estréia divulgado há um tempo, estilo balada), Let There Be Love (cara de futuro single), Blank Page (ao fãs irremediáveis de canções tristes e melódicas como eu), Around The World (com uma pequena referência da era Moulin Rouge), Just a Fool (dueto com o parceiro country Blake Shelton) e Best of Me.

Em 1 hora e 3 minutos fazemos uma viagem mística a lugares onde você precisa ter asas para voar e reconhecer vários modos de lutar, desenhar um sorriso ou cessar fogo. Esperar uma vida nova em uma página em branco. Ou, simplesmente pedir mais um drink ao bartender esperando que o amanhã não seja tão difícil.

Em várias entrevistas Christina já tinha afirmado estar ciente do quanto o momento-Bionic não agradou. Embora entendessem a ideia, muitos seguidores ficaram frustrados. O disco não era lá mesmo composto de muitos possíveis hits. Criticado, pairou como uma experiência sintética  um pouco mal sucedida e que não cativava tanto assim. Algumas faixas pareciam desnecessárias. Até os que a conheciam só por "Beautiful" -- e tempos depois pelo The Voice -- sabiam disso. Momentos de prelúdio, com vozes e efeitos, quebravam um pouco a simetria com um silêncio que não precisava existir. Minhas preferidas conseguia contar em 1 mão: Not Myself Tonight, Lift Me Up e You Lost Me. Não era um Back to Basics.

Mais uma surpresa que quero de presente em um ano onde a música não foi o forte.

A Fera?



Bonito. Mas ao propósito de produção. E ponto. Nada além ou muito elaborado. Um videoclip longo. Assim descreveria "A Fera", filme de 2011 que traz uma releitura moderna de A Bela e a Fera baseada no romance homônimo de Alex Flinn. Outro adaptado. Como diria, mais uma vez, alguém bem próximo e importante: é necessário o expectador "comprar" o filme e a ideia dele. Uma vez que você não entrou na brincadeira descontraida do que é proposto nos apenas 86 minutos de filme, nada funcionará. É certo que o roteiro começa totalmente despretencioso e esse clima de "Sessão da Tarde" não muda muito conforme o tempo passa: as motivações dos personagens, suas relações, sua densidade, seu linguajar. Toda aquela aura peculiar de pura futilidade presente nas séries adolescentes americanas permeia todas as ações. São deixas vazias. Olhares irônicos.

Durante um evento do colégio, Kylie (interpretado por Alex Pettyfer, de "Eu Sou O Número 4) desrespeita uma aluna em público (Mary-Kate Olsen) e é laçado por um feitiço de vingança: no meio da noite o aluno vive um pesadelo, seu rosto passa a ficar desfigurado e apenas um único sentimento lhe trará tudo de volta -- o amor.

A Fera não é feia, tem tatuagens em forma de galhos, continua com músculos e só não possui sobrancelhas. A Bruxa não é de todo má. Ou feia também. A trilha sonora toda se assemelha a finais de temporada estilo Grey's Anatomy e é boa por isso. Vanessa Hudgens ainda é a garota bonita porém rejeitada pela sociedade e cheia de sonhos. E o personagem cego que faz um "tutor" da Fera, apesar das ironias, não se parece cego.

Não é chato de se ver, mas não acrescenta em nada. Mediano.


Ler ou não ler? Eis o tom.


O autor do blog resolve tirar suas próprias conclusões e inicia a jornada...

E então alguém muito próximo me pergunta: "...e tem gancho pro próximo ou pode acabar aí mesmo?"

Pense em um livro que contenha cenas de sexo. Algo que, convenhamos, já é um pouco desnecessário em um livro. Mas ok, leremos sem preconceito. Pois bem, pensou errado. Acho eu. Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James, contém um teor MUITO maior ao que provavelmente você pensou. Não pelo caráter das cenas, mas pela quantidade. Antes de ler achei que encontraria descrições piores pelo tamanho buzz de mídia.

O que desmotiva um pouco a história do primeiro volume é justamente o excesso de momentos assim. Quando se lê algum trecho destes pela primeira vez, mesmo em meio a risos ou outras reações, nada impede o desenvolvimento de nada. Afinal, é novidade. "Moça conhece rapaz. Rapaz se aproxima da moça, e assim vai." Existe um trabalho mais elaborado de personagem. Na primeira metade tudo funciona perfeitamente e é interessante ler. Fica o gostinho de querer saber qual a próxima cena, qual o próximo diálogo, o próximo encontro. É a busca por algo empolgante que impulsiona cada página.

Anastasia Steele resolve ir em uma entrevista no lugar de sua amiga doente. Christian Grey, rico e cheio de sí se encanta por "Ana". Porém, Christian não é um simples magnata jovem. Ele sente prazer em dominar e bater em suas "submissas". A personagem principal se debate emocionalmente entre o prazer de se entregar a esta relação e ao medo de reconhecer a escuridão da vida de Grey. É um namoro? É apenas um contrato firmado de subordinação explícita? Existe amor? Afinal, nada é preto ou branco, bom ou ruim... Os 50 tons de Grey penetram toda a leitura e o simbolismo até funciona. Os personagens são sim bem construidos e cativam, cada um a sua forma.

Novamente, o problema é quando: de dez páginas, apenas duas trazem alguma informação realmente importante sobre o conteúdo dramático. Quem é Grey e sua família? Qual o motivo de agir desta forma? Ele tem algum trauma profundo e espantoso? As palavras fluem (ainda que repetidas a esmo - outro ponto negativo), a escrita é fácil, os diálogos também... e a narração em 1ª pessoa não parece ser de nenhuma forma artificial (mesmo com seus poréns). Mas lá está... o sexo novamente.

Pausa dramática.

Fato é que o sonho de um "homem extremamente rico, poderoso, charmoso e educado" só existe em fábulas. E se repetido muitas vezes acaba cansando. É deslumbramento sem fim. Toda aquela divagação eterna de êxtases surreais sobre toques na pele funcionam unicamente a um tipo específico de público, e todo mundo sabe.

Respondendo à pergunta do começo... O livro possui um final sim, mas cabe a você partir ao outro volume ou não. Se ficou contente com o modo como as coisas terminam e está cansado: pare. Nada ficará estranho. Se quer saber mais detalhes sobre Christian e Anastasia, a doentia mania por controle e problemas psicológicos visíveis... e não se cansou de intermináveis cenas de sexo: leia os outros dois para saber o verdadeiro final.