CHEEK TO CHEEK



Convencionou-se falar mal dos artistas. Em alguma esquina da ignorância isso virou hype. Ficou cool. Um comportamento tão ridículo e tão triste que me faz pensar: pra onde vai a cultura? Se já não se pode esperar muito das gravadoras... nem do próprio público? Qual o problema das pessoas? Perdeu-se o bom gosto? Gente melhor está nascendo ainda? Podemos ter esperança? Foi esse pensamento que eu tive ao ver uma das melhores surpresas do ano tomando forma e comentários surgindo pela internet antes mesmo do lançamento.

Lady Gaga finalmente resolveu mexer os discos sticks e lançou seu novo trabalho, um álbum de jazz, dia 19 de setembro, como prometido. Em colaboração com o cantor Tony Bennett, o disco estreou em primeiro lugar na parada de álbuns da Billboard. Bem diferente da divulgação de ARTPOP que (infelizmente e inexplicavelmente) durou até o segundo e único clip, "Cheek To Cheek" parece receber uma atenção maiorzinha.

O trabalho já era ideia desde 2011 quando gravou "The Lady Is a Tramp" ao lado de Tony para o álbum dele, "Duets II". O que contradiz os comentários de que "ela não sabe mais para onde ir". Foi, então, no especial televisivo de Ação de Graças "A Very Gaga Thanksgiving", do mesmo ano, que mais um repertório de jazz foi colocado em teste e virou um EP - A Very Gaga Holiday.




A nova era de "Cheek To Cheek" teve os 2 primeiros "singles" divulgados no Youtube entre o final de julho e agosto. Na ordem, "Anything Goes" (versão da original de 1934 por Cole Porter do filme homônimo) e "I Can't Give You Anything But Love" (de 1928, uma canção popular no mundo do jazz composta por Jimmy McHugh e que já teve até Judy Garland como intérprete). Ambas as melodias também ganharam um videoclip construido com as imagens de estúdio pouco tempo depois. E o mais engraçado? Mesmo àqueles que não curtem/curtiam esse estilo musical, elas são marcantes. Definitivamente não passam como "mais uma do mesmo". Aliás, característica visível em todas as novas gravações.

Outra canção que apareceu antes do lançamento da tracklist no iTunes foi "Nature Boy", de Nat King Cole, bem famosa entre os cinéfilos das últimas gerações por estar em "Moulin Rouge!" na voz de David Bowie. Mas as referências ao cinema não são apenas estas. Entre os destaques, é impossível não citar a faixa-título, "Cheek To Cheek" (do filme "O Picolino", com Fred Astaire), o exemplo mais claro do quão nova, doce, afinada e intimista a voz de Gaga fica ao lado de Tony. A amizade e o carinho dos dois realmente parecem refletir em cada nota.

No "top 8" das favoritas do autor do blog também aparece a canção "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", originalmente gravada por Cher em 1966 e no mesmo ano aclamada na voz de Nancy Sinatra (versão que aparece na abertura do filme "Kill Bill"). Infelizmente, a faixa não é bônus na edição brasileira. E por último, as melancólicas "Lush Life", "Ev'rytime We Say Goodbye" (gravada por ínúmeros artistas, incluindo nomes como Ella Fitzgerald, Diana Krall, Rod Stewart e Robbie Williams) e But Beautiful (que também ganhou video no youtube com a performance ao vivo).




Little Monster ou não, o que realmente importa é ouvir a música antes de dizer qualquer coisa. Ter uma opinião sobre aquilo. Deixar-se contagiar. Conhecer. Pesquisar. Ir atrás daquilo que é novo e que pode, sim, agradar. 

A façanha de levar um outro gênero musical aos seus fãs já foi perfeitamente concluída.

(E entrar na loja e saber que o disco está vendendo bem e sendo procurado é um gostinho a mais.)

Que venha mais do pop e mais do jazz!
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Sem título. Uma nota qualquer.


Saudade. Saudade de como eu era, de como eu via as pessoas. Dos abraços apertados, dos frios na barriga, das coisas novas e dos presentes. De dizer oi, de me despedir e sufocar todas as minhas rasas preocupações nos compromissos daquele dia. Viver tudo intensamente pra poder acordar e começar de novo. Trabalho, faculdade, amigos e amores. Fosse como fosse. Mas que fosse. Os perfumes. A empolgação. As sensações. As distrações. E o sorriso.

As pessoas dizem que nós mesmos escolhemos os caminhos. Um lindo pensamento, mas uma grande injustiça. Fui eu mesmo quem espantou todas essas coisas? Detalhes que hoje eu desconheço por me desconhecer. E não são poucos.


Sabe aquelas passagens ridículas e sem importância que a gente se lembra por nada? Esses dias me ocorreu o quanto eu reclamava por ter o terrível hábito de marcar músicas e discos à pessoas e lugares. Algumas canções foram definitivamente arruinadas por isso, outras ainda guardo como uma boa lembrança. Uma decepção ali, um aprendizado aqui e uma estabacada mais adiante. Mas isso acontecia pelo menos. O que eu fiz com esse hábito que nunca mais apareceu? É como se tudo tivesse parado de repente. Eu parei de criar memórias? Com a minha idade eu consegui fazer isso???

Sinto falta de tantas coisas que já não consigo nem enumerá-las mais. Foram todas decisões erradas que eu tomei pra chegar nisso? Será que alguma pelo menos eu acertei? Pode ser temporário, quem sabe uma crise dos vinte-e-poucos, ou mesmo algo que no fundo eu saiba o motivo.

Mas eu ando sentindo uma incrível vontade de encontrar aquele lá,
aquele que guardava os cds no guarda-roupa pra nunca mais ouvir (mesmo sabendo que o nunca acabaria dalí alguns meses), e dizer pra ele voltar.
E ficar.

A Vida Trouxa



Conseguir concluir um livro depois de uma longa lista de volumes abandonados é quase como o Brasil NÃO levando 7 a 1 na Copa e a torcida levantando. E não é que eu consegui?

Morte Súbita, lançado em 2012, conta a história dos moradores de uma pequena cidade chamada Pagford. Barry Fairbrother morre por um aneurisma na 1ª página e deixa vago o seu lugar no conselho Distrital. Uma eleição é convocada e os problemas começam, já que seres-humanos são... Enfim, são o que são.  Basicamente esta é a sinopse. Nada mais complicado.

O que começa a complicar, porém, é a quantia excessiva de personagens. Esse fator chega a ser, confesso, um pouco irritante. É preciso calma. Não que isso seja um impecilho pra uma boa leitura, ou mesmo que seja difícil. Não é. E se você não está acostumado com algo assim, logo fica. O problema é a apresentação deles. Cada um dos núcleos (eu contei em torno de 7) são jogados a cada "semi-capítulo" novo, ou seja, de 2 em 2 páginas. Sem tempo pra respirar. Não é nada progressivo. E são dados nomes a personagens que nem aparecerão depois. Ou aparecerão, mas só no finalzinho. Portanto, um bloco de notas nesse momento é sempre bem-vindo. Um bloco de notas e seu bom-senso, claro.

O livro só começa a tomar forma depois de 80 páginas. Então, se você foi perseverante o suficiente pra avançar na leitura mesmo não entendendo pra onde tudo aquilo iria, parabéns. É bem aí que você precisa se desarmar de qualquer expectativa. "Quem matou? Ele vai voltar? Tem algum grande segredo que é a chave pra solucionar...?" Não. Nada disso. Existem pequenos segredos (ou melhor, "verdades esquecidas") de cada um dos supostos "sucessores" de Barry, mas servem de apoio para que as relações relações familiares e conjugais sejam exploradas.

Se o intuito de J.K. Rowling era sair do estigma de "autora do Harry Potter", ela conseguiu. O linguajar aqui é pesado, há bullying, estupro, uso de drogas, suicídio, entre outros. Se foi bem sucedida na sua nova criação... ai são outras, literalmente, 500 páginas. Apenas não é justo tirar o crédito da qualidade literária. Os capítulos são muito bem escritos, concisos e nada é deixado de lado. Até as últimas 3 páginas, a história ainda se desenrola e é trabalhada. Tudo é muito bem arrematado. O que muda de leitor para leitor é o gosto. Talvez esse tipo de história funcione para alguns e não muito para outros. Pra mim, por exemplo, não funcionou. Não é o tipo de leitura, ou até de filme e série, que eu gosto.

(São páginas e mais páginas que se prendem em detalhes irrisórios de cada personalidade em vez de discorrer sobre os maiores acontecimentos. Mas, curiosamente, há um propósito pra isso: demonstrar o tamanho atraso de mentalidade daquele povo. Quando há uma morte, a dona de casa fofoqueira está preocupada com o que vão dizer do seu marido que pode perder votos.)

Em poucas palavras, mesmo quando a narração parece ligeiramente arrastada, a leitura flui. Mas são tantas outras qualidades na contramão, que resumir a experiência de "Casual Vacancy" em ruim não é o correto.

Mais do que um livro sobre tragédias (e muitas), Morte Súbita se revela um triste romance sobre o poder da intriga e a capacidade da mesquinhez humana.

"Shirley era de opinião de que o passado se desintegra quando a gente não o menciona." E você?


Nota:

E há 13 anos eu voltava da Saraiva super ansioso e abria o 1º livro da série. E, sem saber, intensificava ainda mais um hábito que eu já tinha mas não era tão regular. Foi naquela mesma época que muitos como eu abriram a imaginação e até hoje sentem um pequeno frio na barriga ao ouvir "You're a wizard, Harry!" Talvez eu não seja o único que se lembre disso ao ler qualquer livro. Hoje, dia 31 de julho, a autora daqueles três que cresceram com a gente faz aniversário. E muitos bons momentos da minha infância eu devo a ela! Parabéns, J.K. Rowling!







Simplesmente Feliz



Pessoas felizes têm problemas? Ou elas apenas os ignoram? É possível ser feliz vivendo no seu próprio País das Maravilhas?

"Simplesmente Feliz" (Happy-Go-Lucky) apresenta Sally Hawkins como Poppy, uma jovem extremamente otimista que chegou à casa dos 30 como se tivesse 15. Sua vida é divida basicamente entre dar aula a crianças, ir a algumas festas, conversar com os amigos em pequenas reuniões, aprender Flamenco e ter aulas de direção. Nada fora do comum, não fosse por sua incrível capacidade de achar uma felicidade intensa nas pequenas situações do dia-a-dia.

A professora primária segue sua vida da forma mais leve possível. É a partir desse caminho meio tortuoso (pra alguns) e cheio de risos que conseguimos entender qual sua reação pra cada tipo de situação ou pessoa.  Poppy conversa com um mendigo no meio da noite, acha graça do chapéu do atendente de uma livraria, conversa sozinha quando sua bicicleta é roubada e encontra seu oposto de personalidade no instrutor de auto-escola, Scott (Eddie Marsan), com quem mantém uma relação no mínimo complicada.




É preciso ter calma pra captar, no entanto, que ali não é importante o drama, os "grandes momentos" ou as inúmeras possibilidades de história que até poderiam ter sido exploradas. A narrativa do filme é um tanto delicada nesse sentido. Mas é exatamente essa escassez de "conflito" responsável pelo impacto na hora certa.

Muitos classificam o longa do diretor Mike Leigh, indicado ao Globo de Ouro de 2008 nas categorias de melhor filme e melhor atriz, como sem graça ou "abobalhado". Mas será que é tão difícil assim tentar compreender seu propósito ao invés de xingá-lo injustamente de bobo? Bobo é quem não se dá conta de tudo aquilo que é dito ali de forma tão real e tão simples.

Então, volto nas primeiras perguntas... Pessoas assim sofrem? Pelo simples fato de me fazer questionar algo, a história me encantou. A composição da personagem é perfeita: estabanada, impulsiva, honesta e distraída... mas um tanto ciente e esclarecida quando a realidade a chama de volta. Poucas atrizes conseguiriam transmitir essa rara forma de bondade depositada apenas no olhar.

No mundo dela, não podemos fazer todo mundo feliz, mas pelo menos podemos tentar. Nós mesmos fazemos nossa sorte. Bom, alguns. Outros apenas "perdem o barco totalmente".


Um dia a ser lembrado



Dia 31 de janeiro de 2014. 11 da noite. Simples assim.

Ainda haverá o dia em que isso será tão comum que ninguém mais prestará atenção. E o mais engraçado? Há quantos beijos héteros os gays "sobreviveram" e nunca disseram nada? Isso os feriu? Por quê esse haveria de ferir aos outros?

E mais... Quantas crianças já possuem ciência de que elas são "diferentes" (mesmo que não em um nível tão sexual) e crescem em um ambiente assim tão absurdo? Uma sociedade em que o correto é apenas ser o que você não é. Elas se tornam adolescentes angustiados e sem um único momento de paz interior. Não vivem bem. Se isolam. Se torturam mentalmente por conta disso. Dia-a-dia. Demoram a ter amigos que também são assim ou que os "aceitem". E isso? Não é violência???

Aquelas crianças que são héteros, permanecerão héteros. Não vão mudar. Qual a razão de não enxergarem um fato tão óbvio? E os pais que estão preocupados com os filhos? Estão preocupados, então, por puro medo ou ignorância em saber explicar de uma forma leve. A estes... lhes ocorreu que no futuro talvez nem seja necessário explicar? Não seria bem melhor? Então qual o problema? E se isso os aterroriza tanto, certamente alguma questão íntima tem de ser resolvida. Afinal, um assunto qualquer só tem o poder de incomodar tanto assim quando ele diz algo a respeito de você mesmo. Não é?

Vivi pra ver o dia em que o primeiro beijo gay aconteceu em uma novela das 9 na Globo.
Falta muito ainda. Mas aconteceu.
Amor à Vida sempre será lembrada por isso. 
Ai sim eu tiro o chapéu. 
#BeijaFelixENiko
Obrigado, Walcyr.