Os Caminhos da Glória


Um Filme Pra Se Prestar Atenção

“The boast of heraldry, the pomp of pow’r,
And all that beauty, all that wealth e’er gave,
Awaits alike th’inevitable hour.
The paths of glory lead but to the grave

Elegia Escrita Num Cemitério Campestre –
Thomas Gray*

Mais um pro meu planejamento de Janeiro. Na verdade foi um filme que pareceu ir crescendo aos poucos. E, mesmo admirando muito mas ainda não sendo nenhum especialista no diretor como alguns amigos próximos cinéfilos por ai, resolvi postar pela estória. Ah! Mais uma vez ponto positivo pro disco simples da MGM DVD COLLECTION. Não tem muitos extras, na verdade só o trailer, mas vale pelo lançamento no Brasil. O filme é em tela cheia [4x3 1.33:1] e só há o idioma original em inglês. Enfim, de qualquer forma, excelente pra quem coleciona.

Glória Feita de Sangue é um filme de 1957 tido como referência no gênero dramático de guerra. Dirigido por Stanley Kubrick [um dos seus primeiros] em base no romance de Humphrey Cobb ambienta-se na Primeira Guerra Mundial durante a Guerra das Trincheiras e tem seu eixo na seguinte proposta: um general francês ordena um ataque visivelmente impossível e suicida sobre um território ocupado pelos alemães. Como se livrar da responsabilidade e da insensatez do ato? Espelhando-se no título original, Paths of Glory, como trilhar esse mesmo “caminho” sem nenhum sangue pelo histórico?

O discurso inflamado daqueles que só mandam atrás de uma mesa é expelido como exemplo durante o contraste precioso proporcionado pelo preto e branco nos sulcos das trincheiras. O realismo dos closes e dos diálogos fortes deixa em evidência essa obediência humilde dos soldados. As cenas aéreas noturnas nos campos de batalhas combinadas com a trilha sonora militar/suspense fazem o realismo subir ainda mais e o expectador se aproximar daquilo como em um 3D emocional [vale clicar nas imagens para ampliá-las em outra janela].

O efeito de demonstrar a injustiça e causar indignação não pára por ai. O um terço restante de sobreviventes do batalhão fica mobilizado pelo intenso tiroteio e desrespeitando uma ordem direta do superior não avançam. A resposta pra isso vem igualmente dele: atirar em direção do próprio pelotão e fazê-lo andar, mas os comandos não são seguidos. Atirar nos próprios homens é um ato de vandalismo, cruel, vil. Mais baixo ainda é apanhar três homens inocentes em seguida para servirem de exemplo e serem fuzilados pós-julgamento por covardia frente ao inimigo. Se é só uma amostragem, qual o motivo de serem presos e mortos? Ainda que não fosse uma simples amostragem. “A impossibilidade [de avançar no campo] só poderia ser provada com os corpos [dos próprios] [já] mortos nas trincheiras”, esse é o fundamento.

O longa parece ter duas fases distintas. E Kirk Douglas [praticamente um clone do filho Michael Douglas] é preciso na segunda metade. Ele não está lá só pra defender: o caráter um tanto rude e composto faz com que o julgamento esteja sempre ou boa parte em mão-dupla... afinal, ainda é um coronel. Mas, como de fato ele vê que a glória é toda através do sangue daqueles que são xingados de escória, chorões e covardes, a meta é denunciar todas as podridões existentes.

Conseguir denunciar, porém, é muito diferente de denunciar propriamente. Nas palavras de Dex, é impossível julgar se não dão nem a oportunidade de apresentar o caso. Preste atenção nos diálogo de revolta frente ao tribunal. Glória feita de abuso do poder. De pretensão e inconseqüência. A cena pré-fuzilamento estampa positivamente as interrogações em que o filme se envereda até então. Destaque para a atuação rica dos três homens que estão com a cabeça a prêmio, por assim dizer, é de dar dó e indica que a corte de julgamento e todo o sistema que é a mancha pra bandeira da França.

Apesar de triste, a questão religiosa e reflexões sobre a morte entram nesse jogo sujo de poderes, mas a verdade sempre ficará guardada no olhar finalizador e enigmático de Dex através de um vidro observando uma mulher deixando os homens do exército com lágrimas nos olhos. Glória?

* O livro em que o roteiro foi baseado ainda não tinha um título. O poema de Thomas Gray [1716-1771] que dialogava com imagens da guerra e da glória foi sugerido por uma competição mantida pelo editor e ganhou. Em tradução "livre" para o português, por Marquesa D'Alorna [conhecida como a poeta "Alcipe" 1750-1839]:

Vanglória de alta estirpe protectora,
Tudo quanto a beleza e bens nos deva,
Da morte espera a inevitável hora:
Da glória a estrada à sepultura leva.

Note que infelizmente alguns jogos de palavras foram perdidos. "The pomp of pow'r" Power = poder. / Pow = P.O.W = Prisioner of War = Prisioneiro de Guerra.

Acordo Entre... Cavalheiros


“Kazan fez o realismo avançar no cinema americano, elaborando um espetáculo capaz de gerar perplexidade até hoje.”
Rodrigo Fonseca


Primeiro post. Terminei o ano com um filme emocionante. Então... vamos começar o outro com um também. É um típico clássico americano daqueles que hoje em dia não é difícil encontrar por ai... tanto pelo preço, tanto pela edição. Ponto positivo pra Fox Collection. E ponto positivo pra uma outra certa coleção... bom, isso é assunto para depois... se eu conseguir concluir direitinho meus posts de janeiro. Segredo.

A Luz é Para Todos, filme vencedor de três Oscar em 1947, traz o galã Gregory Peck como Philip Schuyler Green, um jornalista jovem e viúvo que acaba de se mudar para Nova York com seu filho pequeno e que precisa de uma idéia para escrever uma série sobre Antissemitismo, o ódio aos judeus. Rodado no pós-guerra, a adaptação do livro de Laura Z. Hobson dirigida por Elia Kazan trás a solução disso em uma frase simples: “o que posso dizer que já não tenha sido dito antes?”. Como afastar-se de apenas dados, fatos e porcentagens que provavelmente ninguém irá ler? Sem a característica formalidade teatral de alguns longas em preto e branco e com bons closes, Peck conduz Green em uma jornada marcante e intuitiva quando decide se intitular um judeu e ir direto às emoções. Em vez de perguntar para um como se sente, ele passa a ser um.

O fato da versão do título para Portugal e Brasil ter um toque especial de emotividade é considerável. São poucos, pra não dizer quase nulos, os longas que trazem um título não tão certinhos ou diferentes do original e que sejam bons. O termo gentlemen’s agreement, acordo de cavalheiros, refere-se a uma espécie de acordo mútuo e informal sobre essa restrição implícita de algumas pessoas em determinadas áreas. Importante perceber que, no entanto, o título não coloca cavalheiros no plural, conserva-se como Gentleman’s Agreement. Seria uma referência ao inverso? Ao protagonista e a natureza de seu ato? Ou talvez apenas uma idéia minha, talvez... Essa segregação social é mostrada exaustivamente no filme e tem seu ápice quando Green não consegue passar pela recepção do hotel que até mesmo já tivera lhe concedido reserva mas não sabia que se tratava de um judeu.

Os ângulos começam a aparecer de todos os lados como numa progressão geométrica espantosa. São os judeus vistos pelos ricos. Os judeus vistos pelos agnósticos. Os judeus vistos por eles mesmos. Afinal, o que é ser judeu? É participar de uma religião que erroneamente carregou o fardo de ser indicada como aquela responsável pela “morte” de Jesus Cristo? É classificar-se em uma etnia?

Às vezes a própria idéia de odiar o preconceito acaba criando discussões profundas e até apontando caminhos para o que seria se houvesse de fato ele. Posicionar-se é um risco constante e os equívocos por parte de ambos podem surgir. Além disso, na parte final batem na mesma tecla: não adianta você se sentir nauseado com as injustiças causadas e se calar. “Se você não parar com as piadas, onde paramos? Qual é o limite?” Falar ou abster-se? No filme, mesmo que não seja possível ser o herói do mundo de um dia para outro, calando-se você vai ser apenas mais um dos que contribuem indiretamente para a mesmice. Isso é o correto? Todos têm direitos iguais, direitos às mesmas coisas, à mesma luz.

Essa série de reflexões encontram uma boa dose de drama na relação comovente entre pai e filho. O amigo de infância judeu de Green diz uma coisa importante, algo como “É ai que você começa a entender. Você se acostuma quando as coisas são pra você, mas dói quando esbarra em seus filhos."


Todos os personagens designam um propósito nítido dentro da trama. O par romântico do protagonista é uma mulher elegante que deseja ser mais que uma “mulher” [já que a Segunda Guerra Mundial pegou bem o vácuo entre as duas primeiras ondas do feminismo] embora pareça cair em contradições nas omissões meio involuntárias por que passa... o choque de idéias e confusões com o seu amado personifica quase um outro papel den
tro do roteiro. Menções a isso e ironia por parte das próprias são gritantes. “Cuidado, essas mulheres vão começar a pensar”. Aplausos para Celeste Holm que faz uma amiga editora de moda e também capaz de balançar as opiniões de Green por Dorothy.

Muitos atores viveram dias difíceis nessa tarefa de se juntar ao elenco do filme. Gregory Peck foi um dos que não hesitaram. Por outro lado, vários tiveram anos de ostracismo por -- a exemplo -- não se apresentarem para testemunhar em um comitê sobre -- numa tradução livre -- "atos não-americanos".

A promessa de que haja um mundo em que as crianças não sejam chutadas na boca em plena rua por serem judias e pais de família não sejam insultados gratuitamente e impedidos de pegarem um trabalho para sustentar sua família fica por conta da voz de Anne Revere que interpreta gentilmente a mãe incentivadora de Green com um ar cativante desde o início. “Ainda vou viver para ver esse dia”. Palavras que provocam uma sensação de estupor àquele expectador que não vive ou nunca viveu naquela década. Eterno por ser visionário. Impressionante por continuar atual.